Turistas estrangeiros com renda média declarada de até R$ 27 mil gastam, em média, menos de R$ 85 durante a visita ao Recife em dois levantamentos da Empetur realizados em novembro de 2023. As entrevistas registraram críticas à limpeza, à conservação dos prédios e a outros aspectos da cidade. Em quase todos os grupos, o índice de recomendação do destino ficou negativo.

A nova reportagem da série Crise do Turismo, do Bastidor, examina a experiência de quem desembarcou, conheceu atrações e retornou ao porto. As pesquisas foram feitas com passageiros dos navios Viking Jupiter e AIDAsol, ouvidos depois da visita ao Recife ou a outros municípios pernambucanos. Os relatos ajudam a observar o encontro desses visitantes com a cidade, para além da operação dos cruzeiros.

No Viking Jupiter, foram entrevistados 65 visitantes em 28 de novembro de 2023. A renda média individual declarada, convertida para reais pela Empetur, foi de R$ 26.965,95. O gasto médio individual no Recife ficou em R$ 80,59. Quase 88% dos participantes eram dos Estados Unidos.

Página 25 da pesquisa da Empetur com o gasto médio individual de R$ 80,59 no Recife, navio Viking Jupiter
Gasto médio individual no Recife dos passageiros do Viking Jupiter, R$ 80,59 (página 25 da pesquisa)

No AIDAsol, a pesquisa ouviu 52 pessoas em 9 de novembro daquele ano. Todos os entrevistados eram estrangeiros, com predominância de alemães. A renda média declarada foi de R$ 16.573,85 e o gasto médio individual na capital, de R$ 84,49.

Página 27 da pesquisa da Empetur com o gasto médio individual de R$ 84,49 no Recife, navio AIDAsol
Gasto médio individual no Recife dos passageiros do AIDAsol, R$ 84,49 (página 27 da pesquisa)

Os valores mostram que o perfil de renda elevado desses grupos veio acompanhado de consumo local modesto durante a escala. A conta se refere ao gasto informado no Recife. Ela não corresponde ao preço da viagem de cruzeiro nem ao orçamento total do visitante. O tempo em terra e os serviços já incluídos na viagem também precisam entrar na análise sobre o potencial de consumo.

A pesquisa do Viking Jupiter registra falta de limpeza em 25,71% das menções sobre o que desagradou na cidade e prédios destruídos em 8,57%. No AIDAsol, a poluição das ruas aparece com 25%, e o mau cheiro, com 5,77%. Os relatórios também mencionam conservação de edifícios, comércio fechado e insegurança. O calor foi a queixa mais frequente nos dois levantamentos.

Gráfico da Empetur com aspectos que desagradaram passageiros do Viking Jupiter no Recife, como calor e falta de limpeza
Aspectos que desagradaram na cidade, segundo passageiros do Viking Jupiter (página 39 da pesquisa)

A cidade vista depois do passeio

Os roteiros relatados passam pelo Centro e pelo Recife Antigo. Marco Zero, Sinagoga, Cais do Sertão, Rua do Bom Jesus e outros espaços da área histórica aparecem nas respostas do Viking Jupiter. Na pesquisa do AIDAsol, os visitantes citaram o Marco Zero, o Centro, a Sinagoga e Olinda.

A maioria informou não ter utilizado agência de passeios. Foram 70,77% no Viking Jupiter e 90,38% no AIDAsol. Isso indica visitas sem intermediação de agência para boa parte dos entrevistados. Os documentos não permitem concluir que todos tenham feito o percurso a pé. No AIDAsol, o grupo que contratou agência informou passeios para Olinda.

A experiência deixou um sinal de alerta na recomendação do destino. O Viking Jupiter teve NPS de menos 34 pontos. No AIDAsol, o indicador ficou em menos 29. O NPS compara a proporção de pessoas que recomendam o destino com a de quem atribui notas baixas. Nos dois grupos, havia mais detratores que promotores. A maior parcela dos entrevistados ficou na faixa intermediária, classificada como passiva.

Página 42 da pesquisa da Empetur com o Net Promoter Score dos passageiros do AIDAsol
Net Promoter Score de menos 29 entre passageiros do AIDAsol (página 42 da pesquisa)

As respostas de 2023 antecedem o receptivo especial da temporada 2024/2025. Esse recorte permite examinar experiências anteriores à iniciativa Pernambuco dos Cruzeiros. O governo apresentou o acolhimento com frevo, degustações e artesanato como parte da estratégia para melhorar a recepção aos visitantes.

Em abril de 2025, o Diário Oficial divulgou um indicador médio de 78,26 para a temporada 2024/2025. Na mesma publicação, Paulo Nery, então presidente do Porto do Recife, atribuiu grande parte do resultado ao receptivo. Essa é a explicação apresentada pelo governo. As pesquisas não isolam o efeito do programa sobre as avaliações.

Há ainda uma mudança no instrumento de pesquisa. Os relatórios de 2023 apresentam notas de zero a dez. Os documentos de 2024 consultados usam categorias que vão de excelente a horrível e agrupam as respostas para calcular o indicador. A diferença exige cuidado ao comparar os resultados e impede tratar a variação como uma medida direta da melhora da cidade.

O recorte de 2023 documenta problemas concretos relatados por visitantes internacionais depois de circular pelo destino. São entrevistas de duas escalas, sem demonstração de representatividade para todos os turistas estrangeiros. Ainda assim, os resultados cobram respostas sobre limpeza, conservação urbana, informação turística e condições de visitação nos percursos apresentados a quem chega ao Recife.

Dados centrais

Consumo e avaliação dos passageiros ouvidos pela Empetur em duas escalas de novembro de 2023.

IndicadorViking JupiterAIDAsol
Data da pesquisa28/11/202309/11/2023
Entrevistados6552
Renda média declaradaR$ 26.965,95R$ 16.573,85
Gasto médio individual no RecifeR$ 80,59R$ 84,49
Não utilizou agência70,77%90,38%
NPS publicado-34-29
Principais queixasCalor 28,57%; falta de limpeza 25,71%; prédios destruídos 8,57%Calor 44,20%; poluição das ruas 25%; mau cheiro 5,77%

Fonte: Empetur, pesquisa do navio Viking Jupiter, 28/11/2023 e Empetur, pesquisa do navio AIDAsol, 09/11/2023.