Pernambuco chega a novembro com 28 dos 99 reservatórios monitorados pela Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) abaixo de 10% da capacidade. Seis deles registram volume zero. Entre os mananciais nessa faixa crítica, 11 têm como uso principal o abastecimento humano. O retrato expõe a fragilidade de parte das reservas do estado na janela de preocupação com o super El Niño.

Os números foram extraídos em 1º de novembro de 2026 dos dados públicos de monitoramento da Apac, divulgados também no boletim de reservatórios de 29 de outubro. O levantamento reúne a última medição disponível de cada barragem. Ao todo, 46 reservatórios, quase metade dos monitorados, aparecem com armazenamento inferior a 30%.

A soma dos volumes registrados é de 944,75 milhões de metros cúbicos, para uma capacidade total de 3.282,21 milhões, o equivalente a 28,78%. O índice agregado combina leituras de datas diferentes e mananciais com usos distintos, por isso não representa a autonomia do abastecimento estadual.

Seis barragens secas

Os seis registros de volume zero são Parnamirim, Abóboras e Chapéu, no município de Parnamirim, Arrodeio, em São José do Belmonte, Barra do Chapéu, em Cabrobó, e Rancharia, em Araripina. Três deles, Abóboras, Chapéu e Rancharia, são cadastrados com finalidade principal de abastecimento humano. A localização da barragem não corresponde automaticamente a toda a área atendida por ela.

No Agreste, Jucazinho concentra um dos sinais mais graves. O reservatório, localizado em Surubim, registrava 3,09% da capacidade e cerca de 6,3 milhões de metros cúbicos na medição de 28 de outubro. Também estão abaixo de 5% Poço Fundo (4,74%), Machado (4,31%), Pão de Açúcar (2,89%) e Duas Serras (2,28%). Com reservas tão baixas, a oferta efetivamente entregue pelas adutoras e pelas fontes alternativas se torna decisiva.

Reservatórios abaixo de 10%

Os 28 dos 99 reservatórios monitorados com menos de 10% da capacidade, pela última leitura disponível até 1º/11/2026. Ao todo, 46 estão abaixo de 30%, e o índice conjunto dos 99 é de 28,78%. Em vermelho, os seis com volume zero.

EM COLAPSO Todos os 28 reservatórios desta tabela estão abaixo de 10% da capacidade, faixa que a Apac classifica como colapso.
ReservatórioMunicípio da barragemCapacidade (hm³)Volume (hm³)%
Abóboras ●Parnamirim14,3500,0000,00
ArrodeioSão José do Belmonte14,5220,0000,00
Barra do ChapéuCabrobó1,6000,0000,00
Chapéu ●Parnamirim144,0000,0000,00
ParnamirimParnamirim3,7350,0000,00
Rancharia ●Araripina1,0430,0000,00
Saco ISerra Talhada36,7070,0740,20
CipóCaruaru0,7560,0030,40
Pau BrancoAfrânio3,3160,0170,51
JuáMirandiba2,8410,0301,04
Panelas IICupira16,0740,2101,31
Serrinha/Serraria ●Brejinho1,2570,0171,37
Eng. CamachoOuricuri27,6650,5562,01
Boa Vista (Salgueiro)Salgueiro16,4480,3542,15
Duas Serras ●Poção2,0320,0462,28
Pão de Açúcar ●Pesqueira34,2310,9912,89
Jucazinho ●Surubim204,8216,3233,09
EntremontesParnamirim303,4789,8993,26
SerroteSão José do Belmonte1,6220,0573,48
CachimboParnamirim31,2071,2934,14
Machado ●Brejo da Madre de Deus1,5970,0694,31
Poço Fundo ●Santa Cruz do Capibaribe8,7900,4174,74
Barra do JuáFloresta71,4743,9395,51
Quebra UnhaFloresta2,7110,1866,88
São José II ●São José do Egito7,1530,4986,97
Araripina (Baixio)Araripina3,7020,2697,26
Poço Grande (Serrita)Serrita1,3130,1027,77
Ingazeira ●Ingazeira48,7294,4459,12

● Uso principal para abastecimento humano (11 reservatórios). Município indica a localização da barragem, não toda a área atendida. Fonte: Apac, boletim de reservatórios.

Reservatórios abaixo de 30%

Os 18 reservatórios entre 10% e 30% da capacidade, que completam os 46 abaixo de 30%, pela última leitura disponível até 1º/11/2026.

ReservatórioMunicípio da barragemCapacidade (hm³)Volume (hm³)%
OitisBrejo da Madre de Deus3,4050,34610,15
Ipanema IÁguas Belas0,5770,06811,70
Lopes IIBodocó23,9353,44814,40
Saco IISanta Maria da Boa Vista123,52418,27514,79
Sítio dos MoreirasMoreilândia2,0970,35216,79
Cachoeira II ●Serra Talhada21,0313,77317,94
Barriguda ●Araripina1,6180,30518,84
Marrecas ●Custódia21,6234,54221,01
Serro AzulPalmares303,12065,01721,45
Cachoeira ISertânia5,9481,29421,76
SalgueiroVerdejante14,6983,25222,13
Serrinha IISerra Talhada311,08072,94123,45
Bom Sucesso ●Tuparetama1,2850,30623,83
Carpina (Lagoa do Carro)Lagoa do Carro255,36962,31424,40
Rosário ●Iguaracy37,0109,06224,48
Mateus Vieira ●Taquaritinga do Norte2,7520,69225,16
AlgodõesOuricuri58,48215,17025,94
Chinelo ●Carnaíba2,1720,60727,97

● Uso principal para abastecimento humano. Fonte: Apac, boletim de reservatórios.

Evento forte até 2027

O boletim de outubro do Painel El Niño 2026-2027, publicado em 29 de outubro por instituições federais, aponta a continuidade do evento forte a muito forte pelo menos no primeiro trimestre de 2027. A combinação de calor e menor disponibilidade de chuva aumenta a pressão sobre as reservas nas áreas atingidas.

Na página 28 do documento, os órgãos federais recomendam a estados e municípios atualizar os planos de contingência, fortalecer o monitoramento e a comunicação de riscos, integrar os setores envolvidos e identificar previamente os recursos disponíveis para resposta.

Rodízio e obras com prazo longo

O problema já aparece na rotina de abastecimento. Em junho, a Compesa informou que Araripina, Trindade e Ipubi enfrentavam rodízio médio de três dias com água e 25 sem fornecimento. Ao anunciar uma intervenção no Sistema Adutor do Oeste, a companhia prometeu reduzir o intervalo sem água para 15 dias. O resultado ainda precisa ser demonstrado com o calendário efetivamente cumprido após a obra.

Na planilha pública de obras da Compesa, a ampliação de 3,6 quilômetros da Adutora de Jucazinho entre Caruaru e Cumaru tem conclusão prevista para 5 de junho de 2027, com contrato de aproximadamente R$ 4,28 milhões. O prazo ultrapassa o primeiro trimestre de maior preocupação climática, e a entrega integral não pode ser contabilizada como proteção já disponível.

O levantamento não localizou um plano estadual específico com autonomia das fontes, gatilhos para restrições, responsáveis e cobertura emergencial por localidade. Há intervenções e contratos documentados, mas a execução precisa ser verificável, com vazão entregue, calendário cumprido e atendimento às comunidades vulneráveis.

Dados desatualizados e quadro desigual

O inventário também revela uma limitação de transparência operacional. Nove reservatórios tinham leituras com mais de 30 dias na data de corte, e as medições disponíveis vão de 9 de junho a 29 de outubro. Em Ingazeira, a última leitura tinha 60 dias.

A situação é desigual. Tapacurá (96,79%), Pirapama (99,89%) e Botafogo (94,56%) aparecem com estoques elevados. Os números afastam a leitura de esgotamento generalizado e mostram onde a cobrança deve se concentrar. Barragem com pouca água, restrição na captação e interrupção na torneira são situações diferentes, porque o abastecimento também depende de adutoras, poços e outras fontes.

Pernambuco tem mananciais esvaziados, reservas locais muito baixas e municípios com histórico recente de rodízio severo. Cabe ao governo demonstrar, com resultados por sistema, como a água chegará à população durante a pressão climática.