Uma articulação digital coordenada, composta por influenciadores digitais, agentes políticos e perfis de oposição nas redes sociais, tem atuado na convocação de protestos massivos e na disseminação de desinformação em Pernambuco. A estratégia utiliza disparos em massa em aplicativos de mensagens e postagens geradas por inteligência artificial para inflar manifestações e espalhar boatos alarmistas, com o objetivo de gerar sensação de instabilidade no estado.

Nesta segunda-feira (13/07/2026), o reflexo dessas convocações resultou em um protesto que bloqueou o trânsito na Avenida Mascarenhas de Morais, localizada no bairro da Imbiribeira, Zona Sul do Recife. A manifestação somou-se a uma série de bloqueios de ruas e avenidas registrados na capital desde o início do mês, gerando forte impacto na mobilidade urbana e na rotina de moradores da Região Metropolitana.

Paralelamente às convocações de rua, perfis de oposição como @raquel_bolada, @pemostratuacara e @peinformado veiculam memes com críticas à governadora Raquel Lyra e convocações explícitas para manifestações em frente ao Palácio do Campo das Princesas. Algumas dessas postagens trazem avisos formais de plataformas de redes sociais indicando o uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) na composição das imagens e peças publicitárias.

Os conteúdos buscam capitalizar politicamente as cobranças em torno do pagamento do Auxílio Emergencial / Auxílio Chuva destinado às famílias desalojadas pelas últimas precipitações no estado, confrontando os dados oficiais do governo, que aponta o início dos repasses a milhares de famílias contempladas.

Atuação de servidores municipais e empresas investigadas

O bastidor.pe divulgou durante a semana indícios de que funcionários ligados à gestão da Prefeitura do Recife (PSB) atuam de forma direta na organização e divulgação dessas mobilizações presenciais contra o governo estadual.

Entre os principais nomes identificados em panfletos digitais distribuídos via WhatsApp está o de Luiz Vicente de Albuquerque, assessor lotado na Secretaria de Articulação Política e Social da Prefeitura do Recife, cujo número telefônico consta nas peças de convocação. Outro articulador identificado é Eduardo da Silva Souza (conhecido como Eduardo Nino), assistente técnico na prefeitura por meio da prestadora de serviços Pernambuco Conservadora Ltda.

A referida empresa foi alvo da Operação Check-in da Polícia Federal em junho de 2026, ocasião em que foram apreendidos R$ 200 mil em espécie e investigados contratos de terceirização de mão de obra suspeitos de favorecer operadores políticos ligados ao PSB na capital.

A apuração também identificou lideranças comunitárias e articuladores políticos atuando na linha de frente dos atos presenciais nas proximidades da rodovia BR-101 e na região do Detran. Entre eles figuram nomes conhecidos como “Mirinho”, ligado ao PSB na Imbiribeira; Lucas Peixoto, aliado do deputado Eriberto Medeiros na Nova Morada; e “Lula Legal”, também vinculado ao partido municipal.

Falsos toques de recolher investigados pela Polícia

Além das pautas sociais e de mobilidade, a rede de desinformação também deu foco à segurança pública. Nos últimos dias, viralizou nas redes um vídeo publicado pelo influenciador Emerson Freitas, pré-candidato a deputado estadual a convite do presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), Álvaro Porto (MDB). No vídeo, que acumulou centenas de milhares de visualizações, exibe-se um banner falso listando bairros da Zona Norte do Recife e de Olinda (como Saramandaia, Campo Grande, Chie, Peixinhos e Ilha do Maruim) sob um suposto “toque de recolher” imposto pela facção criminosa Comando Vermelho.

A narrativa falsa foi endossada publicamente pela ex-delegada e influenciadora Natasha Dolci, pré-candidata a deputada estadual pelo MDB, que cobrou planos de contenção e afirmou que as ameaças eram verídicas. O debate também contou com a intervenção do secretário de Direitos Humanos e Juventude do Recife, Marco Aurélio Filho, que confrontou o posicionamento oficial do Estado nas redes sociais e, posteriormente, apagou os comentários devido à repercussão negativa.

As forças de segurança de Pernambuco desmentiram categoricamente os boatos. O delegado da Polícia Civil, Victor Leite, veio a público esclarecer que a informação é inteiramente falsa e desenhada para instaurar pânico social. O comando da Polícia Militar, por meio do coronel Jonas Moreno, reforçou que o policiamento está intensificado e destacou que a área citada registrou uma redução de 57% nos índices de homicídios no primeiro semestre do ano.

Diante do cenário de disseminação coordenada de alarmismo e do uso político das narrativas de crise, a Secretaria de Defesa Social (SDS) confirmou a abertura de uma investigação oficial para identificar e responsabilizar os autores dos boatos.

Juristas avaliam que o teor das publicações e o uso de disparos automatizados podem justificar representações formais junto ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça Eleitoral por abuso de poder e desinformação em período pré-eleitoral.