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Vice de João Campos enfrenta o risco de se tornar invisível em plena era digital

Rodrigo Ambrosio Por Rodrigo Ambrosio em 24/10/2025, 11h16 · Atualizado às 11h37

Foto: Instagram

Entre aliados de João Campos há uma sensação de tranquilidade bem perigosa. O PSB acredita que a sucessão está sob controle e que o Recife seguirá o mesmo roteiro que consagrou Geraldo Júlio e Paulo Câmara. Na leitura de quem comanda a engrenagem, bastam estrutura, entregas e tempo para consolidar o vice. O partido confia na lógica que sempre lhe deu vitórias, a da disciplina administrativa e da força da máquina. O problema é que o tempo político mudou. A cidade é mais digital, o eleitor é mais disperso e a narrativa de eficiência já não mobiliza.

Victor Marques já começa com um estigma. Ele não é uma tela em branco. Carrega a imagem do “amigo do prefeito”, do “poste”, do “quem é esse cara?” que circula no senso comum e nas conversas de rua. Essa percepção, ainda tímida, tende a se ampliar quando João deixar o cargo em 2026. O vice que hoje vive à sombra passará a ser a cara visível de um governo sem rosto. Nesse contraste, o distanciamento simbólico que hoje é sussurro vai virar palco para a oposição.

Há erros que não nascem de ineficiência e sim de ilusão. João Campos acredita que pode transferir poder como quem entrega uma chave de gabinete, quando o que sustenta o prestígio de sua gestão é o vínculo pessoal que construiu com o eleitor. Esse erro sintetiza perfeitamente a falha em distinguir o capital do Gestor do ativo da Gestão. A sucessão foi pensada como um ato administrativo e o resultado é uma transição organizada na forma e frágil na substância. A prefeitura fala com a voz de João e, quando ele sair, deixará de falar.

Victor parece ser disciplinado e dedicado. Desde junho de 2025, passou a cuidar das redes, a profissionalizar sua comunicação e a aparecer com mais frequência. O problema está na linguagem que escolheu. Cada vídeo, cada texto e cada collab repete os mesmos enquadramentos, o mesmo tom de voz e o mesmo vocabulário de João Campos. Tudo parece correto e nada parece vivo. O vice virou uma versão de laboratório de seu próprio líder. É o político dos anos 2000 tentando sobreviver em 2025, moderno na aparência e analógico na emoção. Aprendeu o formato, mas não entendeu o tempo. O que era para ser presença virou simulação.

As métricas contam o que as palavras evitam. Mesmo com todo o esforço, o ritmo de crescimento de suas redes é tão lento que, se continuar igual, ele chegará a 2028 com menos de 100 mil seguidores. Em uma cidade que consome política pelo feed, um vice invisível é um erro de planejamento, não de carisma. A ausência digital é um sintoma de ausência simbólica. A falta de crescimento nas redes não é um problema de algoritmo, é um problema de ausência de barganha: não há nada ali que valha o clique ou o compartilhamento.

A conjuntura torna o erro ainda maior. João Campos deixará a prefeitura em abril de 2026 para disputar o governo do Estado e precisará de um sucessor capaz de sustentar a imagem do Recife enquanto ele estiver em campanha. O problema é que a sucessão foi tratada como formalidade, não como reconstrução de vínculo. Victor herdará uma máquina de entregas, mas também o peso das suspeitas sobre contratos, a desconfiança sobre a saúde fiscal da cidade e o desgaste natural de um governo que vive em vitrine permanente. A sucessão foi desenhada para blindar o prefeito e acabou expondo o vice.

Enquanto isso, a oposição se movimenta em silêncio. É dispersa, digital, e sabe transformar qualquer deslize em ruído público. Quando João sair, o Recife terá um prefeito sem voz enfrentando um ambiente saturado de críticas e engajamento. O debate político estará aquecido, os vereadores continuarão nas ruas e nas redes e a atenção das pessoas com política estará mais intensa do que nunca. João vai falar sobre Pernambuco e o novo prefeito vai apanhar pelo Recife.

A eleição de 2026 será estadual, mas levará a capital junto. Um prefeito sem rosto e uma cidade em disputa de narrativa formam a combinação mais perigosa para quem pretende avançar. João Campos construiu um governo de imagem, mas esqueceu de deixar uma imagem de governo. Criou uma gestão que fala alto enquanto ele está presente e que ficará muda quando ele sair.

Tempo é o ativo que não se compra. Quando a imagem chega depois do sentimento, ela não comunica, apenas reage. A estratégia de João Campos está brincando com o tempo. Todo vácuo de narrativa é provisório. Se a cidade vai ter um prefeito que não conta a história, a oposição vai contar. O vácuo em torno de Victor Marques nunca esteve vazio, pois é o palco onde a oposição, neste exato momento, consolida a única narrativa que importa: a do prefeito desconhecido que não representa as pessoas.

O erro fatal é acreditar que uma imagem pode ser construída depois que um sentimento público já foi formado. A demora em construir vínculo transforma o vice em personagem passivo, alguém sobre quem os outros falam antes que ele exista como figura própria. Reverter uma rejeição depois que ela se instala custa muito caro, porque o eleitor não apaga lembranças, apenas as confirma.

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