Aos 80 anos, Lula conseguiu uma virada histórica sobre Flávio Bolsonaro, de 45. A explicação pode estar não apenas na redução da abstenção, mas também em um componente emocional que ganhou força na reta final da campanha: a identificação dos eleitores mais velhos com o presidente.
No último debate, na TV Globo, Flávio chamou Lula de “nove dedos”, em referência à deficiência física provocada por um acidente de trabalho. A reação do petista pode ter produzido um efeito inverso ao pretendido pelo adversário.
Diante das câmeras, a imagem de um político jovem ironizando a condição física de um trabalhador idoso pode ter despertado solidariedade entre brasileiros que conhecem bem o preconceito associado ao envelhecimento.
Flávio tentou explorar a idade de Lula como sinal de desgaste. Mas pode ter transformado uma suposta fraqueza em instrumento de identificação.
Os números ajudam a compreender essa possibilidade. Os eleitores com 60 anos ou mais somavam aproximadamente 37,5 milhões de brasileiros aptos a votar. Pesquisas anteriores já apontavam preferência por Lula entre os mais velhos, especialmente na faixa acima dos 70 anos.
A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo. Lula, que havia recebido 45,16% dos votos válidos na primeira etapa, terminou reeleito com 51,79%.
Ainda não é possível determinar quantos idosos retornaram às urnas nem quantos eleitores migraram diretamente de Flávio para Lula. Mas o resultado sugere que a vitória merece uma explicação mais ampla do que a simples mobilização dos abstencionistas.
A própria campanha petista identificou o episódio dos “nove dedos” como oportunidade de sensibilizar indecisos.
Flávio pode ter cometido um erro elementar. Fica valendo o antigo conselho de mãe: respeite os mais velhos. Envelhecer não significa perder a capacidade de reagir.