A forma como os aliados de João Campos estão lidando com a derrota nestas eleições só mostra o quão abusivo é o relacionamento entre PSB e PT em Pernambuco.

Desde que Humberto Costa disputou o governo em 2006, o PT não lança candidatura própria ao cargo. Ao longo desse período, apoiou Eduardo Campos, Paulo Câmara e outros nomes sem futuro da aliança socialista. Agora, depois de mais uma eleição em que abriu mão de disputar o governo, o PSB mobiliza seus aliados para acusar o PT de traição.

Não houve traição. O diretório estadual do PT aprovou o apoio a João Campos por ampla maioria, 59 votos a 11. Humberto Costa foi candidato ao Senado na chapa da Frente Popular, pediu voto explicitamente para João e fez campanha conjunta. Lula foi a Pernambuco, sabendo que não era uma boa ideia, e subiu em palanque associando o nome do socialista à sua reeleição. O partido cumpriu o acordo que havia formalizado.

Humberto foi reeleito com cerca de 2,53 milhões de votos, superando a votação de João para governador. O voto casado com Lula funcionou melhor para o Senado do que para o Executivo estadual. Raquel Lyra, por sua vez, demonstrou novamente capacidade de capturar eleitores que também votam em Lula, como já havia feito em 2022. A incumbência e a aprovação da gestão pesaram mais do que qualquer polarização nacional. Qual o mistério em relação a isso?

Existiram dissidências internas, como sempre existiram. Mas a maioria formalizou e cumpriu o pacto. Transformar a derrota de João em “traição” do PT é inverter a lógica de uma aliança que o próprio PSB se beneficiou por duas décadas, em que o partido petista cedeu sistematicamente o governo estadual para preservar a relação local.

O PT abriu mão de ter Marília Arraes como governadora em 2022 para apoiar Danilo Cabral.

Danilo Cabral!!

O PT vem sendo mais fiel ao PSB do que o próprio partido. O que os aliados de João Campos chamam de traição é, na verdade, a conta de um relacionamento abusivo em que o PSB se acostumou a receber e o PT se acostumou a entregar. Depois de vinte anos sem candidatura própria ao governo, o PT ainda precisa responder por uma derrota que não foi sua.