O segundo turno começou com um chamado à mobilização. O “vira voto” convocou a militância de Lula a conversar com indecisos e eleitores pouco convictos de Flávio Bolsonaro. A cinco dias da eleição, porém, o entusiasmo convive com a perspectiva de derrota. Flávio mantém vantagem numérica nas pesquisas, ainda que a disputa permaneça dentro da margem de erro em vários levantamentos.
Nesse ambiente, um sentimento começa a disputar espaço com a esperança: o ressentimento. Para uma parcela da esquerda, parece cada vez mais difícil aceitar que tantos brasileiros possam escolher um representante do clã Bolsonaro, mesmo diante dos argumentos sobre os riscos democráticos associados ao projeto político da família.
Há um paralelo com o fenômeno americano conhecido como “dark woke”, que ganhou força após a vitória de Donald Trump em 2024. Trata-se de uma reação de setores progressistas que abandonaram a postura conciliadora em favor de uma comunicação mais agressiva, provocativa e, por vezes, hostil aos próprios eleitores conservadores.
No Brasil, o fenômeno ainda não tem nome, mas parte da reação é semelhante. O eleitor que não se convence dos argumentos da esquerda deixa de ser visto como alguém a conquistar e passa a ser tratado como responsável pelo futuro que seus adversários políticos temem.
Surge, então, uma contradição. A mesma militância que pede diálogo no “vira voto” demonstra impaciência com quem não concorda com ela. A tentativa de persuasão se transforma em cobrança moral.
O problema é que o eleitor não necessariamente interpreta a disputa pelos mesmos critérios de quem está profundamente envolvido nela. Pode rejeitar o bolsonarismo e, ainda assim, não querer Lula. Pode considerar importante a democracia, mas avaliar o governo por outros fatores. Isso não significa que todas as escolhas sejam equivalentes, mas que o convencimento exige compreender motivações diferentes das próprias.
Uma vitória de Flávio ainda não está definida. Mas, se acontecer, a esquerda precisará enfrentar uma questão mais complexa que a derrota eleitoral: por que sua leitura sobre o que está em jogo não convenceu a maioria? O ressentimento pode até oferecer algum conforto a quem perde. Dificilmente, porém, ajudará a recuperar os votos de quem se decidiu culpar.