O Brasil cruzou todos os limites e ninguém está disposto a recuar. Essa talvez seja a constatação que mais me assusta. Todos estão avançando ao mesmo tempo, em todas as direções. A direita avança, a esquerda reage, o Supremo amplia seu protagonismo, o Congresso disputa poder e as instituições acumulam crises que já não conseguem resolver.
Nunca vi a polarização brasileira tão intensa quanto neste segundo turno. A direita demonstrou sua força nas eleições para o Congresso, consolidando uma base política e digital gigantesca. A esquerda, que parecia ter perdido terreno nas redes, acordou para a disputa e conseguiu acelerar de maneira impressionante o crescimento de seus canais, páginas e lideranças digitais.
As duas bases aprenderam a disputar atenção, dominar algoritmos e mobilizar milhões de pessoas. Estamos assistindo a uma escalada de engajamento que não terminará com a apuração dos votos. Independentemente de quem vencer, o próximo presidente encontrará uma oposição com capacidade de transformar qualquer crise em uma mobilização nacional.
E tudo isso acontece num país que já ultrapassou limites muito mais graves do que os da disputa eleitoral.
O escândalo de Daniel Vorcaro expôs a relação entre dinheiro e poder, incluindo a exploração de mulheres estrangeiras através do tráfico humano pra atender os desejos de autoridades da república. O Supremo passou a ocupar o espaço da política, enquanto episódios envolvendo ministros alimentam questionamentos sobre os limites da atuação judicial.
Estamos numa fase em que ninguém quer resolver nada. Ninguém aceita perder espaço, ninguém admite os próprios limites. O Brasil não conseguirá funcionar indefinidamente sob uma guerra política permanente, com instituições desgastadas e milhões de pessoas mobilizadas diariamente contra seus adversários.
Essa bomba vai estourar e ninguém está disposto a interromper esse movimento. Essa eleição vai terminar, mas a disposição para o confronto vai continuar. E eu tenho certeza que não sou único a ter a sensação de que o pior ainda está por vir.