A coligação Frente Popular de Pernambuco, encabeçada por João Campos (PSB), anunciou nesta quinta-feira (27), em coletiva no Recife, que vai apresentar uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco. O advogado Rafael Carneiro, que fala pelo PSB nacional, disse que a chapa também levará os mesmos episódios ao Ministério Público de Pernambuco, ao Ministério Público Eleitoral, ao Tribunal de Contas da União, ao Tribunal de Contas do Estado e à Controladoria-Geral da União.
O alvo declarado é a coligação Pernambuco de Coração, da governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD). Carneiro descreveu cinco eixos que, na leitura da Frente Popular, configurariam abuso de poder político e econômico e condutas vedadas a agentes públicos. Cassação e inelegibilidade, se existirem, dependem de prova e de decisão da Justiça — não do microfone da coletiva.
O eixo que a oposição coloca no centro é o das redes. A peça, segundo o advogado, se apoia nas gravações de Amisadai Andrade da Silva — servidor da Caixa cedido à Secretaria de Turismo e Lazer, exonerado na quarta (26) — e nos registros de entrada no Palácio do Campo das Princesas. Carneiro afirmou que o servidor “diz que foi chamado pela governadora” e que, depois de Raquel dizer que ele estava “muito longe”, os documentos de acesso o colocariam “muito perto”.
Os relatórios, obtidos pelo Metrópoles, confirmam duas visitas em 2024: Casa Civil, em julho, e palácio, em setembro, já como representante do Portal de Prefeitura. Não descrevem o conteúdo das reuniões nem um encontro pessoal com a governadora. A Secom informou que os recebeu em agenda regular de veículos e que Amisadai também passou pela Casa Civil nessa condição. Raquel, na sabatina de quarta, negou o encontro, cobrou provas e classificou de mentiras o que a TV Record veiculou. Disse ainda ser alvo de mais de 400 perfis robotizados.
Os outros quatro eixos listados por Carneiro são acusações da Frente Popular: ônibus escolares que teriam levado militantes à convenção do PSD, em 2 de agosto; monitoramento de um veículo funcional do então secretário de Articulação Política do Recife, Gustavo Monteiro, e do irmão, sem autorização judicial, segundo denúncia antiga da imprensa; uso de aeronaves do Estado em deslocamentos político-partidários; e um excesso da ordem de R$ 5 milhões na publicidade institucional deste ano, acima da média que a lei eleitoral usa como teto. A coligação diz ter fotos de placas no capítulo dos ônibus.
O terreno jurídico já estava ocupado. O TRE-PE confirmou ao g1 que tramitam, em segredo de Justiça, duas cautelares só de produção e preservação de provas. Uma é do PSB, sobre “impulsionamento inorgânico” e formação de um “gabinete do ódio”. A outra é da coligação Pernambuco de Coração e trata de uma “rede coordenada de disseminação de conteúdo de ataque à governadora”. O tribunal não identificou alvos, não listou provas e não reconheceu a existência das redes.
Raquel registrou boletim depois de uma enxurrada de PIX de centavos e denunciou um vídeo falso em que aparecia pedindo dinheiro a eleitor. O TRE determinou a retirada de uma publicação com foto manipulada em que a gestora aparece ao lado de Flávio Bolsonaro (PL). A campanha governista, portanto, também se apresenta como vítima de estrutura digital — e chegou primeiro ao tribunal, no fim de julho, com pedido de preservação que o TRE deferiu.
Nada disso, até aqui, é sentença. A AIJE anunciada nesta quinta ainda precisa ser protocolada e instruída. As cautelares servem para guardar vestígios. A Polícia Federal apura a empresa ligada ao Portal de Prefeitura, sem conclusão pública. O guia de rádio e TV começa nesta sexta (28). A disputa pelo Palácio entra na fase mais visível com o jurídico já sentado à mesa.




