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Detergente, política e algoritmo: o que os vídeos de bolsonaristas “bebendo Ypê” revelam sobre a comunicação radical

Redação Por Redação em 12/05/2026

Reprodução: Redes sociais

Nos últimos dias, vídeos de apoiadores de Jair Bolsonaro simulando ou até aparentando beber detergente da marca Ypê tomaram conta das redes sociais após a crise envolvendo a Anvisa e o recolhimento de lotes de produtos da empresa. Em algumas gravações, militantes aparecem ingerindo o produto, lavando alimentos com detergente ou usando o item como forma de “protesto político” contra o governo federal e contra a agência reguladora. O episódio rapidamente virou meme, piada e disputa ideológica. 

Mas, do ponto de vista da comunicação política, o fenômeno é mais profundo do que parece. O objetivo não é defender detergente. O objetivo é demonstrar lealdade política extrema. Em movimentos altamente polarizados, a comunicação deixa de ser racional e passa a funcionar como prova pública de pertencimento. Quanto mais absurdo o gesto, maior o sinal enviado ao grupo: “estou fechado com o meu lado”. É uma lógica semelhante à das guerras culturais nas redes, em que o impacto emocional vale mais do que coerência ou bom senso.

Outro elemento central é o algoritmo. Vídeos chocantes, absurdos ou ridículos geram comentários, compartilhamentos e indignação. E indignação é combustível para alcance. Na prática, parte dessas ações funciona como uma máquina de engajamento político baseada em viralização. O conteúdo nasce para ser ridicularizado, criticado e compartilhado. E justamente por isso cresce. Em ambientes digitais radicalizados, até o constrangimento vira ativo de comunicação.

O problema é o risco dessa estratégia. Quando militantes começam a desafiar alertas sanitários para transformar produtos em símbolos ideológicos, a política entra num terreno perigoso. O debate público deixa de girar em torno de fatos e passa a operar na lógica da seita, onde demonstrar fidelidade importa mais do que realidade. Além do risco óbvio à saúde, existe um dano político mais profundo: a normalização do extremismo performático como ferramenta de mobilização. E, numa democracia hiperconectada, isso produz uma militância cada vez mais emocional, menos racional e muito mais vulnerável à manipulação digital. 

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