Concessionária do Geraldão recebeu financiamento do Banco Master e tem dirigente alvo da PF

Vínculo entre a Revee, empresa que administra o ginásio por 35 anos, e o banco liquidado pelo Banco Central foi revelado em março de 2026.

O vínculo entre o escândalo do Banco Master e a concessão do Complexo Multiuso Geraldo Magalhães, o Geraldão, em Recife, veio a público em março de 2026. A concessionária do equipamento, a Revee Real Estate Venues & Entertainment Participações S.A., recebeu financiamento do banco controlado por Daniel Vorcaro e tem em seu conselho de administração um dos alvos da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que investiga o esquema considerado pela imprensa nacional a maior fraude bancária da história do país.

A concessão do Geraldão

A Prefeitura do Recife concedeu a gestão do Geraldão à Revee em janeiro de 2025, ao fim de um processo de licitação conduzido pela Secretaria Executiva de Parcerias Estratégicas do município, então sob a gestão do prefeito João Campos (PSB). A empresa ofereceu à Prefeitura uma outorga fixa de R$ 3,045 milhões e assumiu o compromisso de investir cerca de R$ 228 milhões ao longo do contrato, dos quais R$ 19 milhões destinados à modernização inicial do complexo e R$ 209 milhões a custos de manutenção pelos 35 anos de vigência, segundo dados publicados pelo site Jamildo, pelo Portal Radar e pelo blog do jornalista Elielson Silva, no acervo da CBN Recife.

Pelo modelo adotado, não há contrapartida financeira da Prefeitura. A concessionária se remunera com aluguel de espaços para eventos, exploração publicitária e comercialização de naming rights.

O Geraldão foi o primeiro ativo da Revee no Nordeste. A empresa já operava, à época, a Arena Fonte Luminosa e o ginásio Gigantão, em Araraquara (SP), e viria a assumir também a concessão de uso da Serraria Souza Pinto, em Belo Horizonte (MG), conforme reportagem da coluna de Demétrio Vecchioli no Metrópoles.

Radar · Geraldão × Banco Master

Linha do tempo, fluxo do crédito e quem é quem — com base na matéria

Jan/2025

Prefeitura do Recife concede o Geraldão à Revee (35 anos; outorga R$ 3,045 mi).

Mar–mai/2025

CCB do Master à Revee ~R$ 458,6 mi (conforme a matéria).

15/ago/2025

Créditos cedidos ao Máxima FIM Crédito Privado 2 (R$ 600 mi; pacote R$ 2,9 bi).

Ago/2025

PF deflagra Operação Carbono Oculto (mira Reag; atinge Revee).

Nov/2025

BC liquida o Banco Master; Vorcaro preso e depois solto com cautelares.

14/jan/2026

Compliance Zero (2ª fase); Mansur deixa a presidência do conselho da Revee (fato relevante B3).

Mar/2026

Vínculo Master–concessão do Geraldão ganha repercussão pública em Pernambuco.

Banco Master

Concede CCB ~R$ 458,6 mi à Revee

Revee

Tomadora · concessionária do Geraldão

Cessão 15/08

Direito de receber por R$ 600 mi

Máxima FIM

Pacote maior ~R$ 2,9 bi

Contrato PCR × Revee (Geraldão)

  • Outorga fixa: R$ 3,045 milhões
  • Investimentos/manutenção: ~R$ 228 mi (R$ 19 mi inicial + R$ 209 mi)
  • Prazo: 35 anos · sem contrapartida financeira da Prefeitura

Daniel Vorcaro

Controlador do Banco Master · liquidação BC · Compliance Zero

João Carlos Mansur

Fundador Reag · conselho Revee · Carbono Oculto / Compliance Zero

Revee

Concessionária do Geraldão · RVEE3 · tomadora da CCB

Prefeitura do Recife

Concedente · jan/2025 · sem rescisão pública até a matéria

Polícia Federal

Carbono Oculto · Compliance Zero · apuração em curso

Nota: fatos sob investigação, sem condenação judicial. Valores e datas conforme a matéria bastidor.pe e fontes nela citadas. Visual alinhado ao Radar de Pesquisas do site clássico.

O vínculo com o Banco Master

Segundo reportagem do Diário do Centro do Mundo, publicada em julho de 2026, o Banco Master concedeu à Revee uma Cédula de Crédito Bancário (CCB) no valor aproximado de R$ 458,6 milhões, contratada entre março e maio de 2025, período próximo ao início da gestão do Geraldão. Em 15 de agosto de 2025, segundo o liquidante do banco, o direito de receber esse e outros quatro créditos de valor semelhante foi cedido por R$ 600 milhões ao fundo Máxima FIM Crédito Privado 2, dentro de uma operação maior, de R$ 2,9 bilhões, hoje sob investigação.

Oito dias depois dessa cessão, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carbono Oculto, que mirou a gestora Reag Investimentos e também atingiu a Revee. João Carlos Mansur, fundador da Reag e presidente do conselho de administração da Revee, voltou a ser alvo da PF em 14 de janeiro de 2026, dessa vez na segunda fase da Operação Compliance Zero, a investigação especificamente dedicada ao esquema do Banco Master. No mesmo dia, a Revee informou em fato relevante enviado à B3 que Mansur deixava a presidência do conselho, de acordo com o Metrópoles.

A reportagem do Metrópoles também registra que a Revee buscou, nos últimos anos, ampliar influência sobre outras arenas esportivas do país por meio da compra de dívidas de construtoras junto a bancos — caso da Arena do Grêmio, em Porto Alegre, cuja fatia foi adquirida por R$ 40 milhões em 2023 e revendida por R$ 80 milhões no ano seguinte. Planos semelhantes para a Arena Fonte Nova (Salvador) e a Arena das Dunas (Natal) não avançaram; a empresa nega ter havido negociação ou interesse mútuo nesses casos.

Mais recentemente, o mesmo empréstimo do Master à Revee passou a ser investigado também na Argentina, ligado à concessão de um estádio em Mar del Plata, segundo apurou a coluna de Vecchioli em agosto de 2026.

O que é o escândalo do Banco Master

O Banco Master teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, após a Operação Compliance Zero da Polícia Federal apurar a emissão de títulos de crédito sem lastro e a inflação artificial de ativos em fundos de investimento, usados para simular solidez financeira da instituição. Daniel Vorcaro, controlador do banco, foi preso no dia 18 daquele mês e solto dez dias depois, por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, passando a cumprir medidas cautelares. O rombo a ser coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é estimado em cerca de R$ 40,6 bilhões, segundo o guia sobre o caso publicado pela Gazeta do Povo.

A investigação já teve pelo menos sete fases e alcançou nomes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, além de gestores públicos estaduais e municipais em diferentes estados, conforme o noticiário nacional sobre o caso.

Pernambuco já havia aparecido antes no radar da investigação por outra via. Em junho de 2026, a Polícia Federal apurou o direcionamento de mais de R$ 3 milhões de fundos previdenciários de servidores públicos de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, para letras financeiras do Banco Master, consideradas de alto risco, segundo reportagem da CartaCapital.

Reflexo no mercado

As ações da Revee (RVEE3), negociadas na B3, sofreram forte queda desde que o nome da empresa passou a ser associado às investigações. Depois de picos que chegaram à casa dos R$ 30 em 2025, os papéis caíram para a faixa de R$ 0,88 a R$ 2,34 ao longo de 2026, de acordo com dados da Investing.com e do Investidor10. Uma perda que passa de 90% do valor.

Situação atual do contrato

Até a publicação desta matéria, não há registro em fontes públicas de que a Prefeitura do Recife tenha aberto processo formal de revisão ou rescisão do contrato de concessão do Geraldão em razão das investigações contra a Revee e seus controladores.

O equipamento segue em operação sob gestão da concessionária.

Fontes consultadas: Metrópoles (coluna de Demétrio Vecchioli); Diário do Centro do Mundo; Máquina do Esporte; Jamildo.com; Portal Radar; acervo CBN Recife (blog de Elielson Silva); site oficial de Parcerias Estratégicas da Prefeitura do Recife; Gazeta do Povo; CartaCapital; Investing.com; Investidor10; dados de mercado da B3 (RVEE3).

Os fatos ligados às investigações policiais e ao noticiário citado permanecem, em sua maioria, na fase de apuração, sem condenação judicial.