Os erros dos candidatos ao Senado em Pernambuco
Marília Arraes, Humberto Costa, Mendonça Filho e Eduardo da Fonte. Montagem: Bastidor.pe / Divulgação
O padrão dos cinco é o mesmo. Quase todo mundo está fazendo campanha do padrinho, não a própria.
Mendonça Filho faz campanha de Raquel Lyra sendo candidato de Flávio Bolsonaro. Túlio Gadêlha faz campanha de Raquel precisando de voto próprio. Marília Arraes e Humberto Costa fazem campanha de Lula e de João Campos sem fechar o pacote dos dois senadores da esquerda. Eduardo da Fonte faz campanha de governadora e recusa o debate nacional diante de um eleitor polarizado nesse campo.
Numa eleição de duas vagas, a aposta que vários analistas fazem, e que esta disputa reforça, é simples: o eleitor tende a casar um voto de esquerda com um voto de direita. Esta eleição em Pernambuco tende a eleger um senador de esquerda e um senador de direita. Quem não ocupa o próprio campo com clareza entrega o segundo voto ao adversário.
Mendonça Filho: dobrada certa, palanque errado
Mendonça é o único nome competitivo que existe só no campo da direita. Eduardo e Túlio são da chapa de Raquel, que puxa também o voto independente e até uma fatia de lulista pragmático. Mendonça é outra coisa: é o palanque estadual de Flávio. A filiação dele ao PL foi construída em cima disso.
O erro é não entender que a dobrada eleitoral dele é Flávio. A dobrada que ele insiste em encenar é Raquel. Ele precisa de uma campanha eleitoral, não de uma campanha política.
Raquel já tem dois senadores oficiais. Cada segundo que Mendonça gasta se colando nela é um segundo em que Eduardo e Túlio podem processá-lo no TRE. E processaram.
O eleitor de Flávio em Pernambuco é minoria. Mas é o eleitor mais disponível para um senador avulso. Se Mendonça não organiza esse voto (Flávio 22, Mendonça 222), Eduardo pesca a centro-direita e o bolsonarista fica órfão, ou casa o segundo voto em qualquer um.
Colar em Raquel não conquista o eleitor dela. E esfria o eleitor de Flávio, que quer sinal, não diplomacia palaciana.
Mendonça precisa monopolizar os 21% de direita e, a partir daí, brigar com Eduardo pelo segundo voto do eleitor de Raquel, sem abrir mão da identidade que esta eleição exige dele. Precisa ter os melhores conteúdos da direita para ser, de fato, o candidato da direita. Enquanto fizer o contrário, disputa no campo errado com a arma errada.
Marília Arraes: primeiro voto sobrando, segunda vaga no sorteio
Marília tem uma rejeição intocada. Quarenta por cento conhecem e não votam nela. A campanha segue no modo “Marilhou” e se comunica com quem já é dela. Não há preocupação em furar a bolha de quem a associa a 2020 e a 2022. Não há um movimento explícito do tipo: por que votar em mim agora, mesmo quem não votou para o governo?
Ela tem muito primeiro voto. E deixa a segunda opção no sorteio.
A outra grande questão é que ela não está sendo a voz da esquerda no debate nacional. STF, escala 6×1, emendas, segurança, governo federal: tudo isso segue sem uma figura estadual que traduza o momento com cara nova. Ela seria a candidata natural a ocupar esse microfone (mulher, Arraes, PDT, sem mandato atual para defender). Em vez disso, a campanha faz campanha de província.
Marília ganha muito com o nome conhecido. Não ganha como interpretação da eleição. Numa disputa em que a esquerda pode ficar com uma vaga só, isso é desperdício: ela leva a dela e não ajuda a garantir a outra para o campo.
Humberto Costa: o erro mais fatal
O erro de Humberto é dos mais fatais que existem. Ele não cola em Marília. E não explica o mandato.
São 16 anos no Senado sem gancho. Não aparece, com clareza, por que isso importa agora. Ele não trava o debate da esquerda. Terceiriza para Lula e para o PT o que deveria estar liderando.
O problema mais grave, porém, é outro: Humberto está caindo fora da dupla de senadores da esquerda.
Se a tendência é um senador de direita e um de esquerda, ele só entra nessa conta se o eleitor de Marília aprender a fazer o segundo voto nele por sistema, não por carinho. Tem de haver ato conjunto, pedido cruzado na mesma frase, caminhada junta, o mesmo fechamento de programa. Número 123 e número 130 no mesmo fôlego.
Enquanto isso não acontece, o eleitor da esquerda gasta o segundo voto em branco, em Túlio ou em Eduardo da Fonte. Se Marília não pedir Humberto e Humberto não pedir Marília o tempo todo, a esquerda elege uma e chora a outra.
Eduardo da Fonte: oficial sem frase
Eduardo é o candidato oficial que não trata o ferimento da base. Há um desgaste que ainda não foi cicatrizado: a crise da União Progressista, a queda de Miguel Coelho, a vaga que nasceu de racha e chegou à convenção com gosto de nome imposto. Estrutura que não compra o produto não vira voto de Senado.
Ele também não decola porque não tem frase nacional. Dizer que não é Lula nem Flávio só funciona se vier com uma posição. O discurso de Eduardo está sem eixo. Centro não é mudez.
Sem eixo, o eleitor de Raquel casa o segundo voto com quem grita mais (Mendonça) ou com quem já conhece (Marília).
Eduardo tem o que Mendonça não tem: a máquina da governadora. E não usa o que Mendonça tem: clareza de campo. Por isso um oficial com estrutura perde espaço para um avulso com identidade.
Túlio Gadêlha: os dois erros no candidato mais frágil
Túlio comete os dois erros ao mesmo tempo, e os comete no candidato mais frágil dos cinco.
Comete o erro de Mendonça: faz campanha do padrinho estadual em vez da própria. Comete o erro de Marília e de Humberto: não se posiciona no eixo nacional do seu campo. E ainda enfrenta o problema estrutural que os outros não têm (o desconhecimento estadual).
A ponte Lula–Raquel é tese de articulador, não de urna. O eleitor de esquerda já tem Marília e Humberto. O de Raquel já tem Eduardo. O de Flávio já tem Mendonça. Túlio insiste em ser o residual dos três. Residual não ganha Senado com 5%.
O desafio dele não é explicar a ponte. É nome, número, interior, repetição. Enquanto gasta tempo justificando a articulação, Marília e Mendonça ocupam os polos. Túlio tinha a chance de escolher um lado e furar o mapa. Escolheu ficar no meio, e o meio, nesta eleição, não elege.
O que a urna premia
O desenho atual premia quem ocupa um campo. Marília, com todos os defeitos da campanha, já ocupa o primeiro voto da esquerda. Mendonça e Eduardo brigam pelo voto da direita e da base de Raquel. Humberto só entra se a esquerda operar como chapa. Túlio, no cenário de hoje, é o primeiro a sair da foto.
Não é falta de padrinho. É excesso de padrinho e falta de campanha própria. Em outubro, o eleitor não vai premiar lealdade palaciana. Vai premiar quem tiver sido, com clareza, o senador de um lado.
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