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“Luquel”: voto em Lula e Raquel incomoda parte dos petistas

Por Fillipe Vilar em 09/09/2026, 15h36 · Atualizado às 16h45

Raquel Lyra no MST (Assentamento Normandia). Foto: Reprodução / Blog Cenário

Interlocutores ligados ao PT em Pernambuco demonstram incômodo com a postura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no processo eleitoral deste ano. A avaliação entre petistas é de que o movimento, historicamente próximo ao partido e ao campo político de Lula, estaria abrindo espaço para a campanha de reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD), apesar de ter definido apoio a João Campos (PSB) para o governo do estado.

O episódio que expôs essa tensão foi a visita de Raquel Lyra ao Centro de Formação Paulo Freire, no Assentamento Normandia, em Caruaru, no dia 4 de setembro. Na saída, um jingle de campanha da governadora foi executado no local, o que provocou críticas e alimentou a percepção de uso político do espaço.

A direção estadual do MST afirma, no entanto, que o movimento segue alinhado a João Campos na disputa pelo governo. As declarações de Jaime Amorim, uma das principais lideranças do MST em Pernambuco, foram publicadas pelo Blog Cenário, em reportagem assinada por Karol Matos.

Amorim reforçou que o socialista é o candidato do movimento, mas fez uma avaliação positiva, com ressalvas, da gestão de Raquel Lyra na área rural: citou ações de infraestrutura e educação, elogiou sua capacidade de negociação com os movimentos e lembrou que a Fetape decidiu apoiar a candidatura da governadora. Para ele, contudo, parte desses resultados decorre da parceria de Raquel com o governo Lula.

É justamente essa equação que incomoda setores do PT. O MST declara apoio a João Campos, mas uma de suas principais lideranças reconhece méritos na gestão da adversária e credita boa parte deles à relação dela com o presidente. Surge daí, entre petistas, a ideia de um voto “Luquel”: Lula para presidente e Raquel para governadora.

A disputa pelo Senado em Pernambuco segue dinâmica semelhante. Nas redes sociais, os candidatos ao Senado da chapa de João Campos recorrem à imagem de Lula com frequência muito maior do que à do próprio candidato ao governo. O presidente se consolida como o principal elemento de identidade eleitoral do campo lulista, enquanto João Campos aparece de forma mais discreta nas peças individuais desses candidatos.

Esse contraste ficou evidente na própria visita ao Assentamento Normandia, onde acompanharam Raquel dois candidatos ao Senado de sua chapa: Túlio Gadêlha, que se apresenta como lulista, e Eduardo da Fonte, identificado com uma posição de centro. A presença de ambos reforça a sobreposição entre a candidatura de Raquel e nomes que buscam diálogo direto com o eleitorado de Lula.

O caso de Túlio é particularmente simbólico. Autodeclarado lulista, ele disputa uma vaga na mesma chapa da governadora enquanto o PT tenta preservar, com Humberto Costa, sua hegemonia nesse campo. A eleição pernambucana, assim, não se organiza apenas pela divisão tradicional entre esquerda e direita; há também uma disputa pelo eleitor de Lula dentro de chapas diferentes.

No próprio PT, candidatos e militantes têm priorizado a imagem do presidente em suas estratégias. É o caso da candidata a deputada federal Liana Cirne, que em vídeo de campanha destaca Humberto Costa e Marília Arraes e faz oposição a Mendonça Filho, candidato do PL ao Senado. A peça ilustra a lógica de que, para uma parte do PT, a eleição em Pernambuco deve ser apresentada como escolha entre os nomes identificados com Lula e os associados à direita.

Essa estratégia explica o desconforto com o MST: não basta ao movimento declarar apoio a João Campos se suas lideranças reconhecem publicamente qualidades na adversária e participam de agendas que Raquel pode explorar eleitoralmente.

O episódio do Normandia expõe, no fundo, uma dificuldade maior do campo lulista em Pernambuco. Lula funciona como referência capaz de unir grupos que, na disputa estadual, estão em lados opostos. Raquel Lyra busca se apresentar como governadora em diálogo com o presidente; João Campos tenta conciliar sua candidatura com o eleitorado lulista; candidatos ao Senado associam suas imagens diretamente a Lula. Nesse cenário, o voto tende a não seguir a lógica de chapa fechada: o eleitor pode escolher Lula para presidente, um nome de uma chapa para o Senado e outro para o governo.

O “Luquel” traduz, portanto, a disputa pelo eleitor de Lula numa eleição em que o presidente não está associado a uma única candidatura ao governo de Pernambuco. Para o PT, isso reduz a capacidade de converter automaticamente sua força eleitoral em apoio aos aliados locais. Para o MST, a tentativa de manter unidade em torno de João Campos convive, na prática, com uma relação institucional que também abre espaço para Raquel Lyra.

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