Kari Santos está se tornando um caso raro na política brasileira. A militante de esquerda e aguerrida mostra que é possível entrar na arena institucional sem abandonar o que a fez chegar até o seu mandato. Fez o que muitos tentam e quase ninguém consegue. Manteve a combatividade, aprendeu o cálculo e transformou a militância em método.
Enquanto tantos militantes se rendem à burocracia assim que ganham um gabinete, ela faz o caminho inverso. Cresce em relevância sem perder a conexão com a base, aumentando o alcance sem diluir a coerência e ampliando o diálogo sem abandonar o conflito. Esse fenômeno é totalmente mensurável, pois desde o início do mandato, ela saltou de 250 mil para mais de 410 mil seguidores apenas no instagram, ampliando a audiência com os mesmos grupos que a elegeram enquanto amadurece o seu perfil político.
O episódio que mudou o jogo
Esse equilíbrio entre autenticidade e inteligência política se tornou evidente no episódio da Escola Paulo Freire. A prefeitura do Recife precisava aprovar o projeto de revisão do Bônus de Desempenho Educacional (BDE). A prefeitura tinha pressa e estava encurralada. As emendas da oposição pressionavam o orçamento e, se fossem rejeitadas em bloco, reforçariam a imagem de uma gestão intransigente com os profissionais da educação.
Kari entendeu o jogo e agiu primeiro. Em vez de se somar ao coro de emendas que seriam inevitavelmente rejeitadas, apresentou uma proposta tecnicamente justa, financeiramente viável e moralmente incontestável. Ao incluir os professores da Escola Paulo Freire no benefício, corrigiu uma injustiça antiga e criou uma situação em que a prefeitura não podia perder. Se o governo negasse pareceria muito mesquinho. Se aceitasse, a vitória seria dela. Foi o que aconteceu.
A aprovação foi unânime. Mais que isso, tanto o governo quanto a oposição aplaudiram. A militante que um dia foi ameaçada de processo por Michele Bolsonaro saiu do plenário elogiada até por vereadores de direita. O poder precisou se adaptar à militância.
O paralelo estratégico
A trajetória de Kari Santos ecoa a fórmula que sustentou os governos Lula 1 e 2. A essência de seu sucesso está na capacidade de fazer a coerência ideológica e o pragmatismo institucional coexistirem, sem que um anule o outro.
Tanto Kari quanto Lula construíram legitimidade a partir da militância. No caso do Lula, foi o sindicalismo e o vínculo com os movimentos sociais. No de Kari, as redes e as categorias que sustentam seu mandato. Essa base confere legitimidade inegociável. Ambos aprenderam a usar a militância como combustível radical e também como forma de pressão legítima.
No caso da Escola Paulo Freire, a demanda era justa e a rejeição seria politicamente custosa. O Executivo foi forçado a conceder porque a militante autêntica, amparada por uma causa real, tornou o custo da negativa alto demais. Lula fez o mesmo em escala nacional. Usou a mobilização social como capital de pressão para aprovar pautas estruturais, sem depender apenas da negociação de cargos.
O cálculo de Kari é a versão municipal desse modelo. Assim como Lula ampliou sua base aliada para garantir governabilidade, ela escolheu o veículo certo para aprovar sua proposta. Em vez de criar um projeto isolado, anexou sua emenda ao PL nº 28 de 2025, que o Executivo precisava aprovar. Transformou a necessidade do governo em caminho para a própria vitória.
A unanimidade da votação repete o mesmo padrão. A militante conseguiu um consenso raro, unindo PSB, MDB e até Novo em torno de sua emenda. Lula fazia o mesmo no Congresso, unindo opostos sob um interesse comum. O resultado é o mesmo: a militância vence sem renunciar ao cálculo.
Kari percebeu uma brecha e a transformou em oportunidade. A prefeitura precisava de uma saída que salvasse a imagem de diálogo e Kari ofereceu uma saída que parecia conveniente para o Executivo, mas que era politicamente perfeita para ela. Corrigiu um erro administrativo, deu visibilidade a uma demanda legítima e ainda fez a oposição votar.
A virada de percepção
Quando Ana Lúcia, do Republicanos, elogiou sua “brilhante atuação” e Felipe Alecrim, do Novo, reconheceu a “independência e maturidade” do gesto, o plenário apenas confirmou o que os mais atentos já haviam percebido. Kari transformou combatividade em inteligência política.
A militante que um dia foi vista como agitadora digital agora é uma liderança que entrega. Aprendeu que a força bruta perde para o timing e que o verdadeiro poder está em antecipar o passo seguinte. A vereadora não foi beneficiada por concessão. Foi ela quem forçou a concessão a existir.
Agora, o desafio não é provar que ela pode entregar. Isso ela já provou. O desafio é replicar com consistência, mantendo o combustível radical que sustenta sua relevância. O episódio da Escola Paulo Freire deve ser lembrado como o primeiro capítulo de uma série de entregas que traduzem militância em resultado. Uma reputação se sustenta pela constância do gesto, não pelo brilho do instante.
Kari Santos sintetiza o que há de mais sofisticado no DNA político do PT. Ela pratica a versão municipal do método Lula, provando que coerência e pragmatismo não são opostos, mas forças complementares.
O caso da Escola Paulo Freire é o exemplo de que é possível converter indignação em cálculo e enfrentamento em conquista. A vereadora que chegou pela militância digital agora transforma o plenário em espaço de legitimidade e crescimento.