A campanha de Lula (PT) no segundo turno de 2026 parece revisitar uma estratégia que não impediu a derrota da esquerda em 2018: transformar a rejeição ao bolsonarismo no principal instrumento de mobilização eleitoral. Oito anos depois do “Ele Não”, o alvo mudou de Jair para Flávio Bolsonaro (PL), com lógica similar.
Em 2018, o movimento protagonizado por mulheres levou milhares às ruas contra Jair Bolsonaro. Mobilizou setores progressistas, mas não conseguiu impedir sua eleição. O limite estava na dificuldade de transformar rejeição em novos votos.
Agora, a campanha de Lula dedica parte expressiva da propaganda à desconstrução de Flávio. O histórico da família Bolsonaro, a pandemia e posições políticas do senador ocupam espaço no discurso petista.
O debate da Band, no domingo (18), expôs esse risco. Pesquisa qualitativa realizada pelo Instituto Travessia, a pedido do Estadão, identificou frustração e desânimo entre eleitores diante da troca de ataques. A maior parte dos indecisos acompanhados terminou o confronto sem definir o voto, sugerindo dificuldades para conquistar quem ainda busca motivos para escolher um candidato. Parte dos indecisos terminou o confronto sem definir o voto.
Mesmo assim, a ofensiva continuou. Lula voltou a cobrar que Flávio abrisse seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, desafio lançado na Band e não aceito pelo candidato do PL. O presidente chegou a condicionar sua participação no debate da Globo, na sexta-feira (23), à divulgação dessas informações, embora depois tenha confirmado presença.
A Quaest desta quarta-feira (21) mostrou rejeição de 52% a Flávio e 47% a Lula, com empate técnico nas intenções de voto. Os números, porém, exigem cautela. Em Pernambuco, a Quaest apontava empate entre Raquel Lyra e João Campos até a última semana do primeiro turno. Só na véspera apresentou projeção próxima do resultado, que reelegeu a governadora com 53,27% dos votos válidos.
O risco para Lula é confundir mobilização com convencimento. Reforçar a rejeição de quem já rejeita o bolsonarismo não significa conquistar o eleitor insatisfeito com o governo. Em 2018, dizer “Ele Não” não bastou. Em 2026, insistir na mesma lógica pode custar uma vitória possível.