O Exército Brasileiro tem uma maneira muito esquisita de lidar com a sociedade. Parece viver num mundo à parte, onde prestar esclarecimentos é uma concessão, e não uma obrigação. É uma instituição melindrosa, que exige confiança enquanto oferece informações a conta-gotas.

O desaparecimento do soldado Pedro Gabriel Bezerra é um exemplo disso.

Desde sábado (17), o Exército sustentava que o jovem havia fugido do quartel levando um fuzil e 20 munições. A família questionava a versão, sobretudo pela ausência de imagens que comprovassem sua saída.

Na segunda-feira (19), uma jovem foi presa por suspeita de ajudar na fuga. Era uma informação fundamental para esclarecer o caso, mas o Comando Militar do Nordeste só comunicou a prisão na terça-feira (20), mais de 24 horas depois.

Enquanto isso, a desconfiança crescia. Circulavam teorias de que o soldado havia sido morto dentro do quartel e de que militares estariam escondendo alguma coisa.

O Bastidor, com muito esforço, conseguiu relatos de fontes militares, sob sigilo, sobre supostas dívidas superiores a R$ 20 mil envolvendo Pedro Gabriel. Eram informações que poderiam ajudar a sociedade a compreender melhor o caso.

No fim, o soldado realmente havia deixado o quartel. Apresentou-se em Goiana, município marcado por disputas entre facções criminosas.

Uma instituição que já enfrenta desgaste de credibilidade não pode agir como se estivesse acima da necessidade de prestar contas. O silêncio, a demora e a comunicação excessivamente fechada alimentam justamente as suspeitas que depois seus representantes precisam combater.

O Exército não conseguiu localizar o soldado. Foi ele quem se entregou. Durante quatro dias, a instituição demonstrou uma enorme dificuldade para convencer a sociedade de que sabia o que estava fazendo. O soldado, no fim, também salva a imagem do Exército.

Tudo isso revela uma instituição que parece não saber lidar com a comunicação social. Enquanto isso, a crise de confiança permanece, e boa parte dela foi alimentada pelo próprio Exército.