O que a manifestação de Thiago Medina na votação do Dia Municipal da Mestra Ritinha nos revela?
Jo Cavalcanti e Thiago Medina
Entre o apagamento histórico e o direito à memória: o que o debate na Câmara do Recife revela sobre a pluralidade religiosa em Pernambuco.
Por Ana Carolina Marsicano
Socióloga e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política – LABERP (FUNDAJ)
O episódio ocorrido na última segunda-feira (17), na Câmara Municipal do Recife, durante a discussão do projeto que institui o Dia Municipal da Mestra Ritinha, não deveria ser tratado como uma controvérsia parlamentar menor. A manifestação do vereador Thiago Medina (PL) contra a homenagem coloca em evidência uma questão mais profunda: quais religiões e memórias são consideradas dignas de reconhecimento pelo poder público? A pergunta ganha ainda mais importância quando falamos do Recife e de Pernambuco. A Jurema Sagrada não é uma presença periférica na história religiosa e cultural do Nordeste. De matriz indígena e afro-indígena, atravessou séculos de repressão, perseguição e tentativas de apagamento, mantendo-se viva pela transmissão de conhecimentos, práticas espirituais, cantos, fundamentos e memórias entre gerações.
Em Pernambuco, falar de Jurema é falar também da formação religiosa, cultural e popular de nossas cidades. É falar dos terreiros, das matas, das mesas de Jurema, dos pontos cantados, das ervas, das entidades, dos encantados, dos mestres e das mestras. Por isso, contar a história dos mestres e das mestras da Jurema é também contar uma parte da história de Pernambuco. Mestra Ritinha ocupa um lugar importante nessa memória. Conhecida como Ritinha da Rua da Guia, sua história está associada ao Recife antigo e a territórios como a Rua da Guia e o Cais do Apolo. Com o tempo, sua memória passou a integrar o universo espiritual e religioso da Jurema Sagrada, tornando-se uma das mestras cultuadas e lembradas por comunidades juremeiras.
Reconhecer Mestra Ritinha, portanto, não significa apenas criar uma data no calendário municipal. Significa reconhecer uma memória popular, feminina, religiosa e profundamente recifense que por muito tempo permaneceu à margem das narrativas oficiais sobre a cidade. É também por isso que o episódio precisa ser compreendido à luz do racismo religioso. Quando símbolos e lideranças cristãs ocupam solenidades, parlamentos e homenagens oficiais sem que sua legitimidade seja constantemente colocada em questão, enquanto uma Mestra da Jurema precisa ter sua importância explicada e defendida dentro da Câmara Municipal, existe uma assimetria que não pode ser ignorada.
O contraste se torna ainda mais evidente diante de outros reconhecimentos concedidos pelas instituições pernambucanas. Em maio de 2026, a Assembleia Legislativa de Pernambuco concedeu a Frei Gilson o Título Honorífico de Cidadão Pernambucano. O problema, portanto, não é o reconhecimento de figuras religiosas. A questão é perguntar quais figuras religiosas encontram as portas das instituições abertas e quais precisam continuamente justificar sua própria existência como parte da história de Pernambuco. Não se trata de questionar o direito de um vereador professar sua fé. A liberdade religiosa inclui esse direito. Mas ela também deve garantir que juremeiros e juremeiras tenham suas tradições, entidades, mestres e mestras reconhecidos como parte legítima da história da cidade. Uma sociedade plural não pode operar a partir de uma hierarquia em que determinadas tradições são reconhecidas como religião e patrimônio, enquanto outras permanecem submetidas à suspeita, ao preconceito e ao apagamento. Defender a memória de Mestra Ritinha é também disputar a memória do Recife.
É lembrar que esta cidade não foi construída apenas por igrejas, conventos e personagens consagrados pelas narrativas oficiais, mas também por povos indígenas, populações negras, mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, terreiros e comunidades tradicionais. Registrar as histórias dos mestres e mestras da Jurema Sagrada é, portanto, preservar uma parte fundamental da memória social do Nordeste.
Quando essas histórias chegam aos calendários públicos, às políticas de patrimônio, às universidades, aos livros, aos museus e às câmaras legislativas, não se está concedendo um privilégio: está-se enfrentando uma longa história de apagamento.
Talvez seja justamente isso que o episódio desta semana revela. Em um estado que reconhece oficialmente lideranças cristãs, o reconhecimento de uma Mestra da Jurema ainda pode provocar resistência. E isso nos obriga a perguntar que Pernambuco estamos construindo: um no qual apenas determinadas crenças podem se converter em memória oficial ou um capaz de reconhecer a pluralidade religiosa que constitui sua própria história?
Mestra Ritinha já pertence à memória religiosa e popular do Recife independentemente de qualquer reconhecimento parlamentar.
Mas dar nome a essa memória importa.
Celebrá-la importa.
Transmiti-la importa.
Porque diante do racismo religioso e das sucessivas tentativas de silenciamento, lembrar também é uma forma de resistência.
E a Jurema sabe disso há muito tempo:
“Ritinha desmanche o nó, pois debaixo da tua saia, Ritinha tem catimbó.”
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