Não é de hoje que o bolsonarismo construiu sua identidade política em torno de uma aliança com Donald Trump. Desde 2018, a proximidade com o republicano serviu como selo de legitimidade internacional e ferramenta retórica para mobilizar sua base.
Em 2026, Flávio Bolsonaro, e o bolsonarismo como um todo, transforma essa aliança em bandeira de campanha.
O problema é que Trump vive o pior momento de sua carreira política.
Segundo a pesquisa Reuters/Ipsos de outubro, sua aprovação caiu para 32%, o menor patamar já registrado. A principal causa é a guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro sem aprovação do Congresso. O conflito se arrasta há mais de oito meses, com o Estreito de Hormuz parcialmente fechado e os preços do petróleo disparando.
Para o eleitor americano, a guerra virou sinônimo de conta mais cara. Apenas 17% aprovam como Trump conduz as políticas que afetam o custo de vida.
O desgaste tem consequências eleitorais diretas. Em 3 de novembro, os EUA realizam eleições de meio de mandato, e as pesquisas mostram democratas abrindo vantagem para retomar o Congresso.
Trump pode perder o controle legislativo em menos de um mês, o que significaria paralisia e bloqueios à sua agenda.
É nesse contexto que o bolsonarismo aposta todas as fichas. Para o grupo político, um governo Bolsonaro teria acesso privilegiado a Washington.
Mas que tipo de acesso pode oferecer um presidente com 32% de aprovação, prestes a perder o Congresso e envolvido em uma guerra impopular? A influência de Trump está em seu nível mais baixo desde que retornou à Casa Branca.
O bolsonarismo parece calcular que sua base fiel não se importa com os números americanos.
Para esse eleitorado, Trump é um símbolo, uma figura de identificação ideológica. Mas eleições no Brasil não se vencem apenas com a base.
O segundo turno exige atrair o eleitorado indeciso, que olha para a economia e para a estabilidade.
Esse eleitorado faz perguntas incômodas: que benefícios concretos essa aliança trará? E se Trump perder o Congresso, com quem o Brasil vai negociar?
A aposta em Trump é ideológica e também estratégica, com riscos concretos. No pior momento da popularidade do republicano, ela parece cada vez mais parecida com uma aposta cega.