O caso que ficou conhecido como “fura-fila” colocou a Procuradoria Geral do Município do Recife no centro de uma controvérsia envolvendo a nomeação do filho de um magistrado. Agora, documentos da própria gestão municipal mostram que não era o único filho de integrante do Judiciário a chegar à Procuradoria naquele período.
Um mês antes da nomeação que provocou a crise do concurso, a Prefeitura do Recife havia dado um cargo comissionado a Henrique Carneiro Leão Mendonça de Araújo, filho do desembargador Luiz Gustavo Mendonça de Araújo. Poucas semanas depois, Luiz Gustavo seria escolhido para integrar o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco como desembargador eleitoral substituto.
Henrique é advogado e foi nomeado em 19 de novembro de 2025 para o cargo de Assessor Executivo Especial da Procuradoria Geral do Município. A nomeação consta na Portaria nº 1676, publicada no Diário Oficial do Recife. No Portal da Transparência, ele aparece como servidor extraquadro, lotado na Procuradoria Judicial. Em janeiro de 2026, a remuneração bruta registrada para o cargo era de R$ 13.905,04.
A nomeação aconteceu em um momento particular. Em 15 de dezembro, menos de um mês depois da entrada de Henrique na gestão municipal, o Pleno do Tribunal de Justiça de Pernambuco escolheu Luiz Gustavo Mendonça de Araújo para atuar como desembargador eleitoral substituto do TRE-PE.
Como desembargador eleitoral, Luiz Gustavo passou a atuar em processos envolvendo partidos, candidatos e coligações, inclusive representações apresentadas pelo PSB e pela Frente Popular, grupo político de João Campos. O magistrado também proferiu decisões favoráveis a pedidos do PSB e da coligação.
A mesma Procuradoria do fura-fila
A nomeação ocorreu na mesma Procuradoria que, semanas depois, estaria no centro do caso conhecido como “fura-fila”. Lucas Vieira Silva, filho do juiz Rildo Vieira da Silva, havia ficado em 63º lugar na ampla concorrência do concurso para procurador municipal. Anos depois do certame, pediu reclassificação para a lista PCD.
Apesar de manifestações contrárias de procuradoras de carreira, o pedido foi acolhido pelo comando da PGM. Lucas passou ao primeiro lugar na lista PCD e foi nomeado por João Campos em 23 de dezembro de 2025. Após a repercussão, a própria Procuradoria reviu a decisão e a Prefeitura tornou a nomeação sem efeito.
Foi o juiz Rildo Vieira quem anulou a Operação Barriga de Aluguel, investigação do MPPE contra contratos milionários da Prefeitura do Recife. Em agosto de 2026, o Conselho Nacional de Justiça determinou que a Corregedoria do TJPE apure a conduta do magistrado.