A política tradicional ainda vai descobrir o YouTube
Imagem: Imago/photothek/T. Trutschel
Em Pernambuco, não há discussão: a maior parte da produção de conteúdo para políticos e instituições governamentais está no Instagram. Para muitos deles, é o principal — senão o único — meio de comunicação direta com os eleitores.
Nos últimos anos, as ações e tendências dentro da plataforma de fotos e vídeos da Meta ditaram o que seria publicado na internet pelos políticos. Por exemplo: tornou-se fundamental para as equipes de redes publicar, às quintas-feiras, o tradicional #tbt ( throwback thursday ) com lembranças e registros antigos de momentos marcantes da trajetória de seus personagens.
Também se consolidou a estratégia de investir em uma carga organizada de stories mostrando toda a agenda do político ao longo do dia. A intenção é transmitir a impressão de um ritmo intenso de trabalho, com pouco espaço para lazer ou momentos lúdicos.
Com o advento das plataformas de inteligência artificial generativas — popularmente chamadas de IAs, como ChatGPT, Gemini, Grok, Claude e DeepSeek — essa ludicidade ganhou novas formas. Não é raro ver publicações em que políticos aparecem transformados em cartoons ou retratados com visual futurista e humorado. Outro recurso cada vez mais comum são os reels: vídeos curtos em formato vertical que resumem agendas oficiais e destacam atividades cotidianas.
A política estagnou no Instagram
Toda essa dominância da Meta vem sendo observada de perto por suas concorrentes. Porém, há uma percepção clara entre usuários do Instagram: ninguém quer ver política no “Insta”. No fim de 2024, uma pesquisa da Accountable Tech identificou queda média de 65% no alcance das páginas de conteúdo político na plataforma. Para quem trabalha com redes sociais, isso se traduz em um impacto imediato: queda brusca no engajamento das publicações políticas no Instagram.
Mas a política continua mobilizando as pessoas. O que muda é o espaço de circulação. No YouTube, a maior plataforma de vídeos da internet, que hoje também opera com lógica de rede social, o crescimento de conteúdos políticos é notório. Grandes podcasts — formato que floresceu após a pandemia — como Flow, Inteligência Ltda. e Podpah, têm apostado em entrevistas com figuras da política, muitas vezes alcançando suas maiores audiências.
A relação do público com o YouTube se transformou. O que há quase 20 anos era um site para assistir vídeos rápidos no computador, hoje é uma plataforma de grandes produtores, que oferecem seriados, documentários e canais com qualidade comparável às grandes emissoras de TV. Cada vez mais pessoas assistem YouTube pela televisão. Isso permite formatos mais longos e profundos.
YouTube é o momento
Quem percebeu a oportunidade, cresceu. Podcasts e programas de debate têm investido em temas políticos como motor de engajamento. Há ainda os formatos de “30 pessoas comuns contra 1 especialista”, que transformam política em entretenimento e geram um fluxo quase infinito de cortes e vídeos curtos pensados para viralizar ou detalhar aspectos específicos das conversas. Isso sem contar os “reacts”, formato que nasceu na plataforma há quase 20 anos e que, hoje, toma conta de todas as plataformas que utilizam vídeos.
No cenário nacional, o MBL (Movimento Brasil Livre) soube explorar bem o YouTube, que se tornou essencial na promoção e consolidação do seu partido, o Missão. Em Pernambuco, uma figura também se destacou nesse campo: Jones Manoel. Liderança do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Jones conquistou status de celebridade, ampliando fortemente sua influência na esquerda por meio de debates e aparições digitais.
Resta saber se lideranças de outras correntes políticas do estado terão a mesma desenvoltura. Quem permanecer preso ao Instagram e seus formatos está, sem dúvida, dormindo no ponto.
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