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Comunicação política no MDB-PE revela disputas internas e narrativas divergentes

Por Fillipe Vilar em 03/10/2025

Jarbas Filho, Waldemar e Henry: disputa acirrada

A anulação da filiação do deputado estadual Waldemar Borges ao MDB, determinada pela Justiça na última quinta-feira (2), trouxe à tona não apenas uma disputa jurídica e partidária, mas também diferentes estratégias de comunicação na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). O episódio evidencia como cada ator político escolhe linguagens distintas para se posicionar diante do público e reforçar sua imagem.

Jarbas Filho aposta na ironia e no simbolismo

Waldemar Borges manteve silêncio sobre a derrota judicial, Jarbas Filho, único deputado do MDB na Alepe após a decisão, recorreu ao Instagram para dar sua resposta. Publicou um story enigmático: caminhando pelo plenário, fez um sinal de “joinha” com a frase “tá tudo legal”. A mensagem, simples e sem explicação direta, cumpre dois papéis comunicacionais:

  1. Marcar território – reafirma, sem precisar declarar, que continua líder do MDB na Alepe.

  2. Usar a linguagem do humor e da leveza – estratégia típica das redes, que transforma uma disputa institucional em conteúdo digital de fácil circulação.

Jarbas prefere a ironia ao confronto direto, se diferenciando de Borges e do próprio MDB estadual, que partem para o embate jurídico e institucional.

Waldemar Borges e o silêncio calculado

O deputado Waldemar Borges, por sua vez, optou por não reagir diretamente à decisão judicial em suas redes sociais. Sua comunicação se concentrou em outro tema: um vídeo acusando o governo estadual de estocar ônibus escolares para “fins eleitoreiros”.


Esse movimento indica uma estratégia de deslocamento da pauta – em vez de reforçar o desgaste de uma derrota judicial, Borges tenta redirecionar a atenção para um ataque direto ao governo Raquel Lyra. O silêncio, nesse caso, comunica tanto quanto a fala: evita que a base perceba fragilidade, mas pode também transmitir desconexão com o noticiário imediato.

Raul Henry e a nota oficial: institucionalização do conflito

A reação do MDB estadual, liderado por Raul Henry, seguiu a linha tradicional de nota à imprensa, com linguagem formal e ataque direto ao Judiciário e a setores que tentam “impedir o crescimento do partido”.

Segue íntegra da nota:

NOTA À IMPRENSA

A direção estadual do MDB de Pernambuco vê com estranheza a decisão judicial que suspende a filiação do deputado Waldemar Borges ao partido.

Em duas decisões anteriores, em primeira e segunda instâncias, a Justiça reconheceu a legitimidade e a regularidade dessa filiação — uma delas, inclusive, proferida pelo mesmo magistrado que agora adota entendimento oposto à sua deliberação anterior.

Para nós é injustificável que lideranças queiram impedir o crescimento do partido por meio de ações judiciais. É deplorável querer barrar, sem nenhum motivo plausível, a filiação de um parlamentar com trajetória exemplar, marcada pela coerência, integridade e espírito público, desde sua participação na resistência democrática, como militante da nossa legenda.

Diante disso, o MDB-PE informa que entrará com recurso judicial cabível para restabelecer seu direito legítimo de fortalecer suas fileiras, em consonância com a linha política vitoriosa na Convenção Estadual.

Raul Henry

Presidente do MDB-PE


A escolha da nota oficial cumpre três funções:

  • Preservar a imagem de Waldemar Borges, enquadrando-o como vítima de manobra jurídica.

  • Unificar o discurso partidário, já que a oposição precisava reagir com firmeza à decisão que fortalece a base governista.

  • Marcar contraste com Jarbas Filho, que se comunica de forma mais solta e ambígua.

A nota, no entanto, reforça a contradição interna do MDB-PE: enquanto Henry posiciona o partido na oposição, Jarbas segue alinhado com a governadora.

A disputa pelo enquadramento narrativo

Governo e aliados veem a anulação como vitória política, ainda que indireta, transformando o episódio em narrativa de “resistência” frente às manobras oposicionistas. Já a oposição aposta na judicialização e tenta enquadrar o episódio como cerceamento de crescimento partidário. Mas, na comunicação digital, ainda não conseguiu dar unidade ao discurso.

Enquanto Jarbas fala com leveza, Waldemar prefere atacar o governo em outro flanco, e Raul Henry busca respaldo na institucionalidade. A ausência de sintonia comunicacional entre os oposicionistas enfraquece a narrativa coletiva e fortalece, paradoxalmente, o governo.

Comunicação como arma de sobrevivência

O caso mostra como, em Pernambuco, a política deixou de ser apenas disputa de votos e se tornou também uma disputa de linguagens: do story enigmático ao vídeo-denúncia, da nota oficial à ironia digital.

Até novembro, quando uma nova audiência deve ocorrer, o que estará em jogo é menos o desfecho jurídico e mais a batalha de narrativas: quem conseguirá se apresentar como vitorioso diante da opinião pública.

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