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Recife deixou de movimentar R$ 173,7 milhões no turismo de cruzeiros em 4 anos

Rodrigo Ambrosio Por Rodrigo Ambrosio em 31/10/2025

Foto: Reprodução/Porto do Recife

Pesquisas expõem falhas do Recentro, com insatisfação recorde dos turistas, ruas sujas e percepção de abandono no centro do Recife.

Há anos, o mercado turístico está perdendo muita receita no Recife em silêncio. A cidade, que já foi ponto fixo nas rotas de cruzeiros do Nordeste, atravessa um ciclo de esvaziamento que vem custando caro. Entre as temporadas de 2022-2023 e 2025-2026, a capital pernambucana deve deixar de movimentar potencialmente cerca de R$ 173,7 milhões em sua economia local.

O número representa o custo de oportunidade estimado a partir de um amplo cruzamento de dados oficiais, que reúne as escalas confirmadas pela Coordenadoria de Operações Portuárias do Porto do Recife (COOPE), os indicadores econômicos da CLIA Brasil e da FGV, além das pesquisas de desempenho turístico da Empetur e da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia. A combinação dessas fontes permite mensurar, com base comparativa e regional, a magnitude das perdas acumuladas pelo Recife no segmento de cruzeiros.

Reputação em crise

O volume de navios previstos para a temporada 2025-2026 em Recife caiu novamente. A tabela mais recente da COOPE indica 18 escalas, mas várias ainda aparecem com a anotação “à confirmar”. O cancelamento do Costa Fascinosa, que era um dos maiores navios previstos para este ciclo, agrava o cenário e deixa evidente que a retração não é pontual. O problema é estrutural da cidade e afeta toda a cadeia urbana que depende da presença desses turistas.

Turismo Temporada 2025 – 2026 by contato

Por trás dos números está um dado revelador. Em novembro de 2023, o Viking Jupiter, com renda média declarada superior a R$ 26 mil por passageiro, registrou um gasto médio em Recife de apenas R$ 80,59. A maior parte desses turistas circulou pelos bairros do Recife Antigo e Centro, locais onde o projeto Recentro deveria gerar impacto visível na experiência urbana. O índice de satisfação foi um dos mais baixos já registrados: o Net Promoter Score (NPS) foi de -34%, zona crítica, com 38,5% de detratores. Entre os fatores negativos mais citados estavam a sujeira nas ruas, a presença de moradores de rua e o abandono dos prédios históricos.

A sequência foi confirmada pelo AIDASOL, cruzeiro de luxo com maioria de passageiros alemães e renda média de R$ 16 mil, que também atracou no Porto do Recife em novembro daquele ano. O resultado foi semelhante: gasto médio de apenas R$ 84,49 por visitante e NPS de -29%. Os principais fatores negativos mencionados foram sujeira, mendicância, mau cheiro e insegurança. Ou seja, mesmo diante de turistas de alto poder aquisitivo, o Recife falhou em gerar qualquer estímulo mínimo ao consumo.

A perda se repete em dois níveis

A crise atual tem raízes antigas. Desde 2013 o Recife aguarda uma dragagem estrutural definitiva. A intervenção prometida nunca se concretizou de forma plena. Em 2018, a Capitania dos Portos recomendou oficialmente a redução do calado por causa do assoreamento acumulado nos canais do porto. O aviso era um sinal de que a cidade já estava perdendo competitividade, mas o alerta foi ignorado. Uma dragagem emergencial foi feita em 2022, no último ano do governo Paulo Câmara (PSB), mas manteve o Porto operando com cerca de 10 metros de calado, ainda abaixo dos 11 ou 12 metros exigidos para navios de grande porte.

O Recife não apenas perdeu espaço para navios de grande porte, que mudaram suas rotas para outros destinos, mas também continua falhando em acolher cruzeiros menores de alto padrão que, apesar de não enfrentarem limitações técnicas de atracação, deixam de incluir a cidade em suas rotas por falta de condições urbanas e experiência turística adequada.

Nos casos observados com os navios AIDASOL e Viking Jupiter, ambos em 2023, o gasto médio dos turistas foi de apenas R$ 84,49 e R$ 80,59 respectivamente, valores inferiores a 1/7 do padrão nacional da CLIA Brasil para cidades de escala naquele mesmo período. No ciclo seguinte, os levantamentos da Empetur com os navios Costa Pacifica e Costa Favolosa, realizados em novembro de 2024, confirmaram a tendência. Os turistas gastaram em média R$ 96,58 e R$ 89,94, muito abaixo do potencial de R$ 709,47 estimado pela CLIA Brasil e pela FGV para a temporada 2024/2025.

Mesmo entre turistas estrangeiros de alta renda, com rendimentos médios declarados entre R$ 18 mil e R$ 36 mil mensais, a cidade não conseguiu gerar estímulo mínimo ao consumo. Em dois anos consecutivos, o Recife registrou desempenho cerca de sete vezes inferior ao potencial de consumo do mercado nacional, o que reforça que o problema não está no porto, mas na cidade que permanece incapaz de transformar a chegada dos cruzeiros em receita, diferente com o restante do país, cujo mercado gerou mais de 84 mil empregos apenas na última temporada.

O contraste regional que expõe a distância

Enquanto o Recife desacelera, Salvador e Maceió transformaram o turismo de cruzeiros em uma das principais vitrines econômicas do Nordeste. Na temporada 2023-2024 a capital baiana recebeu 440 mil passageiros e movimentou cerca de R$ 260 milhões em sua economia local. O resultado não veio do acaso. Salvador passou mais de uma década consolidando infraestrutura e requalificando a cidade até torná-la parte viva do seu circuito turístico.

A diferença entre Recife e Salvador se revela naquilo que o turista faz depois de desembarcar. Em Salvador, 98,4% dos visitantes afirmaram que pretendem voltar, e 95,3% recomendariam a cidade a outras pessoas. No Recife, o cenário é o oposto: entre os passageiros do AIDASOL, apenas 36,5% disseram que voltariam, e no Viking Jupiter o índice sobe um pouco, mas não passa de 49%. Ou seja, metade dos visitantes de alto poder aquisitivo que chegam ao porto não tem qualquer interesse em retornar.

Enquanto em Salvador 63,2% dos cruzeiristas realizaram compras de artesanato, souvenirs ou produtos locais, no Recife os registros de consumo são residuais, restritos a gastos mínimos com transporte e alimentação. Com isso, a capital baiana entrega quase 7 vezes mais valor econômico por passageiro em relação ao Recife.

Maceió seguiu o mesmo caminho. Há cinco anos recebia menos de dez escalas por temporada. Na temporada 2024-2025 ultrapassou trinta escalas confirmadas (11 navios, incluindo múltiplas paradas do ‘mega-navio’ MSC Grandiosa),registrando crescimento acima de 300%. As duas cidades entenderam que o navio é o início de uma cadeia de consumo que precisa de limpeza, de sinalização, de comércio e de segurança.

Reações do Estado

Enquanto o Governo de Pernambuco tenta reagir com ações estruturais, a Prefeitura do Recife, com o Recentro como principal programa urbano, permanece sem respostas à altura.

Na temporada 2024/2025, a Secretaria de Turismo e Lazer de Pernambuco implantou o projeto “Pernambuco dos Cruzeiros”, um receptivo especial com degustações de cachaças e doces regionais, apresentações culturais e acolhimento bilíngue no Terminal Marítimo. A iniciativa foi aplicada de forma piloto em alguns navios e mostrou resultados expressivos nesses casos específicos. O índice de satisfação (NPS) saltou da zona crítica para uma média de 78,26% de aprovação entre os visitantes atendidos. A experiência indicou que o problema não é a falta de oportunidades.

Em outubro de 2025, o Governo de Pernambuco anunciou um investimento de R$ 300 milhões para o embutimento da fiação aérea em todo o Bairro do Recife. Os primeiros trechos incluem pontos icônicos como o Marco Zero, o Cais da Alfândega e a Praça do Arsenal, justamente o circuito mais frequentado por turistas e também um dos alvos mais citados nas reclamações de quem desembarca dos cruzeiros.

Outro ponto é que, após rodada de articulações, a governadora Raquel Lyra e o ministro Silvio Costa Filho anunciaram um termo de compromisso para finalmente viabilizar uma dragagem de R$ 100 milhões no Porto do Recife. A obra, se cumprida, pode elevar o calado para 11 ou 12 metros, atendendo perfeitamente o novo mercado global de cruzeiros, que está migrando para embarcações de maior tonelagem que exigem calados operacionais de no mínimo 11 metros.

Além disso, a frente portuária começa a receber investimentos mais consistentes. O Porto do Recife terá um novo terminal marítimo de passageiros, com aporte estimado em R$ 10 milhões e leilão previsto para o segundo semestre de 2025. O objetivo é ampliar a capacidade de recepção para até 50 mil passageiros por ano, quase o dobro dos 30 mil registrados na temporada 2024/2025.

Porém, a realidade é dura! Mesmo que o terminal seja modernizado, que o calado do porto seja ampliado e a fiação seja embutida, o impacto turístico continuará limitado se o Recife não enfrentar seu problema de experiência urbana. Sem limpeza, segurança e vitalidade econômica, o turista internacional continuará rejeitando o destino.

E é justamente nesse ponto que o Recentro se torna símbolo da falha: um programa criado para revitalizar o centro, mas que não conseguiu transformar o discurso em ambiente real de acolhimento.

O Recentro fracassou?

O Recentro nasceu com a promessa de ser o símbolo da virada urbana do Recife. A ideia era revitalizar o centro histórico, atrair investimentos, repovoar bairros esvaziados e transformar o Recife Antigo em vitrine do turismo e da economia criativa. Foram anunciados mutirões de limpeza, requalificações pontuais, planos de incentivo e comitês intersetoriais. Na prática, o que se observa nas avaliações dos visitantes é um quadro de insatisfação recorrente.

Em 2019, quando a Empetur projetava um salto de 69,3% no número de passageiros, comemorava-se também a expectativa de um gasto médio de R$ 202,14 por visitante na cidade do Recife, o que corrigido pela inflação equivale hoje a R$ 284,26 / IPCA (IBGE). Cinco anos depois, com o turismo global amplamente recuperado e o Recentro em execução, o Recife apresentou a maior retração da série histórica. As pesquisas mais recentes da Empetur realizadas com os navios Costa Pacifica e Costa Favolosa, registram gastos médios de R$ 96,58 e R$ 89,94, resultando em uma média de R$ 93,26. Isso representa uma queda real de aproximadamente 67% no consumo individual, mesmo em um cenário de crescimento do poder aquisitivo dos turistas estrangeiros.

Os levantamentos qualitativos ajudam a explicar essa retração. No Viking Jupiter, 25,7% dos visitantes citaram a sujeira das ruas, 10% mencionaram a presença de moradores de rua, 8,5% observaram prédios abandonados e 2,8% relataram mau cheiro. No AIDASOL, o padrão se repetiu em proporções ainda maiores, com 25% apontando sujeira, 9,6% mencionando pobreza visível, 5,7% registrando mau cheiro e 3,8% relatando insegurança. A combinação desses fatores compõe um retrato de degradação urbana que reduz o tempo de permanência e inibe o consumo local. A cidade falha em oferecer as condições básicas que sustentam qualquer ecossistema turístico: limpeza, segurança e conforto.

O contraste com o cenário nacional evidencia a dimensão da perda. Em 2019, o gasto médio nacional de um cruzeirista era pouco superior a R$ 200, e o setor movimentava cerca de R$ 2 bilhões por temporada. Em 2025, o gasto médio ultrapassa R$ 709,47 nas cidades de escala e R$ 918,15 nas de embarque, gerando R$ 5,43 bilhões à economia brasileira. Enquanto o país multiplicou seu desempenho econômico no mercado de cruzeiros, o Recife ainda vê turistas com renda superior superior a R$ 26 mil gastando menos de R$ 90 em seu centro histórico, menos da metade da média nacional de 2019.

Essa disparidade confirma, em termos de mercado, uma falha estrutural no desenvolvimento urbano e econômico do município. O Recentro não conseguiu reativar o ciclo de consumo nem reposicionar o centro histórico como polo turístico competitivo. Pior do que isso, os indicadores atuais mostram que o programa passou a produzir resultados em 2025 que representam deterioração significativa em relação a 2019.

Relatorio – Navio Viking Jupiter by contato

Relatorio Entrevistas 09.11.2023 3 by contato

As companhias de cruzeiro escolhem rotas em que o passageiro desembarca com segurança, encontra atrativos e deixa dinheiro na cidade. Mas a realidade nos mostra um quadro mensurável de estagnação urbana, que transforma o coração do Recife em evidência de um planejamento que parou no meio do caminho. Ao observarmos os indicadores de visita, no Viking Jupiter 48,8% visitaram o Marco Zero e 42% permaneceram entre o centro e o Recife Antigo. No AIDASOL, 52% concentraram-se no mesmo eixo, e 100% dos passeios agenciados foram para Olinda. A cidade vizinha, com menos incentivos e mais preservação, absorveu o que o Recife perdeu.

Apenas 33% dos entrevistados avaliaram positivamente a qualidade ambiental e 25% consideraram a segurança satisfatória. A experiência urbana foi classificada como crítica em todos os indicadores. Bares e restaurantes, que deveriam ser vitrine do programa, não alcançaram 15% de aprovação. O comércio ficou em torno de 23%. Nenhum segmento do centro conseguiu atingir a faixa considerada mínima para um destino competitivo.

É importante lembrar que o Recentro, até o fim de 2022, se apresentava como liderança direta da operação de cruzeiros, coordenando ações com a PM, a Guarda Municipal e comerciantes. Assumia inclusive responsabilidades na área de segurança, colocando guardas municipais para rondas turísticas.

Por isso, nosso portal procurou o Gabinete do Recentro e a Secretaria de Turismo e Lazer do Recife para saber se existe alguma ação estruturada prevista para receber os turistas de cruzeiro na temporada atual, entender quais medidas foram adotadas nos últimos anos e qual tem sido a atuação do gabinete pra fazer com que esse turista se encante pela cidade. Até o fechamento dessa análise, não houve qualquer resposta de nenhuma das duas pastas. O espaço segue aberto.

Entendendo o cálculo dos R$ 173,7 milhões

A metodologia parte de uma simulação simples e verificável. Considera-se um cenário teórico, no qual o Recife tivesse retomado em 2022/2023 o mesmo patamar de passageiros projetado antes da pandemia e voltado a crescer no mesmo ritmo ao ano observado em 2018-2019. A projeção não reflete um crescimento efetivo, mas sim o custo de oportunidade de uma cidade que deixou de acompanhar a recuperação nacional do setor.

A projeção desconsidera a diferença entre o potencial e o resultado da temporada 2019-2020, pois a pandemia interrompeu o ciclo no meio da operação, tornando inviável qualquer avaliação de desempenho real. O número de 40.285 passageiros projetado pela Empetur naquele período foi mantido como base de referência, representando o patamar de volume e crescimento que o Recife vinha atingindo antes da Covid-19.

O número potencial resultante foi comparado às temporadas efetivas apuradas pela COOPE, que registram volumes bem inferiores nos anos seguintes. A diferença entre os fluxos potenciais e reais foi multiplicada pelo gasto médio de R$ 555,85 por cruzeirista, indicador aferido em Salvador pela SETUR-BA em 2025, utilizado como referência regional por refletir o desempenho real de uma cidade nordestina de porte semelhante. Esse parâmetro é ainda mais conservador se comparado à média nacional de R$ 709,47 em cidades de escala, calculada pela CLIA Brasil e FGV para a temporada 2024/2025.

Dados Cruzeiros by contato

Projeção de perda de passageiros e prejuízo Direto

Temporada Passageiros Potenciais (+69,3 % a.a.) Passageiros Reais (COOPE) Diferença Perda Potencial Direta (R$ 555,85)
2019/2020 40.285 28.917 11.368 (desconsiderado)
2020/2021 (sem temporada) (sem temporada) 0 0
2021/2022 (sem temporada) (sem temporada) 0 0
2022/2023 40.285 (base 2019) 27.287 12.998 R$ 7.224.938
2023/2024 68.203 31.268 36.935 R$ 20.530.319
2024/2025 115.467 24.613 90.854 R$ 50.501.195
2025/2026 195.485 23.644 (teórico) 171.841 R$ 95.517.819

*Dados de passageiros potenciais projetados com crescimento anual de 69,3% a partir da base 2019/2020.

Totais do Período (2022/2023 a 2025/2026)

Total de passageiros perdidos:

312.628

Perda econômica potencial estimada:

R$ 173.774.273,80

O resultado representa uma perda potencial estimada de R$ 173,7 milhões no quadriênio 2022/2023 a 2025/2026, valor que expressa o custo econômico da estagnação do Recife diante de um mercado que retomou plenamente seu ritmo de expansão após a pandemia. Caso fosse aplicada a média nacional da CLIA e da FGV, de R$ 709,47, o total chegaria nos R$ 220 milhões.

Esse número ainda não alcança a amplitude total do impacto, pois cada real gasto por um cruzeirista gera uma cadeia de consumo que movimenta setores como transporte, alimentação, artesanato e serviços. Mesmo sob a leitura mais conservadora, os dados revelam que a capital pernambucana perdeu, em poucos anos, o equivalente a um ciclo inteiro de crescimento no turismo marítimo, o que ainda seria bem inferior aos R$ 260 milhões em movimentação econômica de Salvador apenas na temporada 2024/2025, reforçando o tamanho da lacuna que o Recife abriu em relação aos concorrentes regionais.

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