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Raquel Lyra avança, mas ainda precisa traduzir gestão em narrativa

Rodrigo Ambrosio Por Rodrigo Ambrosio em 14/10/2025

Foto: Divulgação

As pesquisas mais recentes sobre a corrida pelo Governo de Pernambuco indicam que o cenário de 2026 entrou em uma nova fase. Depois de meses de estagnação, a governadora Raquel Lyra voltou a crescer discretamente nas intenções de voto e rompeu a inércia que a acompanhava desde o início do ano. Mas o dado mais relevante não é o avanço em si, e sim o que ele revela: a disputa em Pernambuco segue sendo menos sobre gestão e mais sobre vínculo emocional, e é justamente aí que Raquel ainda não conseguiu penetrar.

Cenário e tendências

A leitura combinada das pesquisas Genial/Quaest, Real Time Big Data, Conecta, Simplex, Futura e Opinião, consolidadas pelo Radar de Pesquisas do bastidor.pe, mostra que João Campos já não mantém a vantagem elástica que ostentava no primeiro semestre. O prefeito do Recife caiu de 62% para 55% no Instituto Opinião e registrou retrações semelhantes em outros levantamentos. Raquel, por outro lado, estabilizou-se entre 27% e 29%, após um longo período abaixo desse patamar. Essa combinação de curvas opostas confirma uma reacomodação do cenário, mais do que uma virada de tendência: João perdeu fôlego, Raquel saiu do chão.

Ainda assim, a diferença segue expressiva, e o movimento não altera a essência da disputa. A vantagem do adversário continua assentada sobre um ativo que nenhuma planilha de governo entrega: a conexão afetiva com o eleitor. João Campos, ao longo dos últimos anos, construiu uma presença digital diária que lhe garante familiaridade e ubiquidade no imaginário político pernambucano. Seu vínculo com o público é contínuo e performático, sustentado pela constância de comunicação e não apenas pelos resultados administrativos.

O limite da gestão

Raquel, ao contrário, segue travada em um modelo de comunicação racional, que traduz gestão, mas não emoção. Seu discurso ainda se ancora em entregas e dados, sem a tradução simbólica capaz de fazer o eleitor sentir pertencimento. A política, como se sabe, é movida pela emoção, e o dado eleitoral é apenas o retrato provisório dessa disputa por atenção. Enquanto João ocupa o território emocional, Raquel ainda busca construir o seu.

O poder da caneta

É nesse ponto que o poder da caneta encontra o limite da percepção. A governadora entra em 2026 com um orçamento robusto que prevê aumento de quase 30% nos investimentos estaduais, algo em torno de R$ 7 bilhões livres para aplicação direta, e um plano de obras capaz de gerar mais de 40 mil empregos diretos. O desafio, porém, é transformar esse volume financeiro em presença simbólica. Dinheiro no cofre não vira voto se não for convertido em experiência percebida.

O ano eleitoral oferecerá a Raquel uma janela rara: o tempo em que João Campos ainda precisa se desincompatibilizar e o governo estadual pode intensificar a entrega de resultados concretos. Mas a questão essencial permanece: como transformar execução em emoção? A gestão pode render manchetes, mas só a narrativa cria sentimento. E é nesse intervalo entre o concreto e o simbólico que se decide o capital político de uma candidatura.

Da entrega à percepção

Em termos de marca, o governo ainda carece de uma promessa clara e de uma barganha emocional com o eleitor. A comunicação pública continua fragmentada, e a governadora ainda não conseguiu fazer de suas políticas um signo de identidade. O desafio é construir uma imagem que traduza sua entrega em história, algo que o eleitor possa lembrar, repetir e sentir como conquista própria.

O voto útil, nesse contexto, se torna secundário. O que se consolida agora é o voto por convicção, alimentado por percepção e vínculo. O eleitor que hoje declara preferência por João Campos não o faz por cálculo político, mas por reconhecimento simbólico. A dianteira do prefeito é o reflexo de uma marca emocional já consolidada, o avanço de Raquel é o sinal de que o jogo ainda não está encerrado.

A batalha pela atenção

A eleição de 2026, portanto, não será decidida apenas por quem tem mais estrutura ou orçamento, mas por quem dominar o território da atenção. O capital político não é mais o que se imprime no Diário Oficial, mas o que se imprime na emoção coletiva. Raquel Lyra avança, mas enquanto não emocionar, continuará governando com a caneta em uma mão e o silêncio simbólico na outra.

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