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Quase 40% dos turistas reclamam de preços abusivos e desordem em Porto de Galinhas

Rodrigo Ambrosio Por Rodrigo Ambrosio em 28/12/2025

Foto: tripadvisor

Há quase 3 anos, as autoridades turísticas de Pernambuco e de Ipojuca têm em mãos um diagnóstico alarmante, mas pouco foi feito. Porto de Galinhas, o principal cartão-postal do estado, atravessa um ciclo de encarecimento e desordenamento que começa a cobrar seu preço na reputação do destino. Desde novembro de 2023, dados da Empetur revelam que a insatisfação dos visitantes com os custos e a abordagem na areia atingiu níveis críticos, transformando o “paraíso” em um alvo frequente de reclamações.

Os números representam um custo de reputação estimado a partir de um cruzamento de dados oficiais da Pesquisa do Perfil do Turismo Receptivo. A combinação dos indicadores de satisfação com as respostas espontâneas dos turistas permite mensurar, com base estatística, a magnitude do desconforto gerado pela falta de fiscalização e controle de preços.

O bolso é o maior inimigo

O volume de críticas registradas no relatório de novembro de 2023 é revelador. Ao serem questionados sobre o que mais desagradou na viagem, o 1º lugar absoluto no ranking de queixas foram os “Preços Elevados”, citados por 17,40% dos entrevistados. O dado não é isolado: ao avaliar especificamente os custos de bens e serviços no destino, 38,96% dos turistas classificaram os preços como “Elevados”.

O problema é estrutural e afeta toda a cadeia de consumo. Enquanto o turista chega disposto a gastar (com um Gasto Médio Individual Diário (GMID) girando em torno de R$ 379,25), ele se depara com uma relação custo-benefício que frustra a experiência. A percepção de “exploração” no consumo local afasta o visitante e reduz o potencial de retorno, algo que as autoridades sabem, mas falham em combater.

A desordem na areia

Por trás dos preços, está outro dado que expõe a falha de gestão na orla. A segunda maior reclamação dos turistas, logo atrás dos preços, são os “Ambulantes”, citados por 15,97% dos visitantes como o principal ponto negativo da estadia.

A insatisfação é confirmada quando se analisa a avaliação dos serviços. Enquanto o comércio formal (lojas e shoppings) goza de boa reputação, o “Comércio na Praia” amarga os piores índices de rejeição. Segundo a Empetur, 30,73% das avaliações para este serviço não foram positivas (somando regular, ruim e péssimo), sendo que 11,07% dos turistas cravaram o serviço diretamente como “Ruim”, a maior taxa de reprovação entre todos os 14 itens de infraestrutura e serviços analisados no destino.

Ou seja, mesmo diante de um cenário paradisíaco, Ipojuca falhou em organizar o serviço mais básico oferecido ao visitante: o atendimento na areia. A insistência, a falta de padronização e os preços abusivos praticados nesse ambiente criam um contraste gritante com a beleza natural, que segue sendo o único pilar a sustentar a nota do destino.

O contraste que expõe a inércia

A crise de satisfação tem raízes na falta de ação. O relatório de 2023 já apontava que, enquanto os atrativos naturais (praias e piscinas naturais) mantinham aprovação acima de 90%, a experiência de consumo degradava a visita.

É importante notar a disparidade: o serviço de “Passeios de barco/jangada”, muitas vezes associado visualmente à orla, possui uma aprovação de 99,04% (entre ótimo e bom). Isso prova que o turista sabe diferenciar o serviço turístico regulamentado da desordem do comércio ambulante e dos preços abusivos de alimentação e produtos. O problema não é o jangadeiro, mas o ecossistema de vendas predatório que se instalou ao redor dele e que o poder público optou por não enfrentar.

Reações que não chegam

Enquanto o Governo do Estado e a Prefeitura de Ipojuca comemoram números de ocupação hoteleira, o “silêncio” sobre a qualidade da experiência do turista é ensurdecedor. O relatório está na mesa desde o final de 2023.

A pesquisa ouviu 829 turistas in loco. A margem de erro não deixa dúvidas sobre o descontentamento. Se quase 40% do seu público diz que o seu produto está “caro demais” e a segunda maior lembrança negativa é a abordagem de vendedores, o sinal vermelho já deveria ter acendido.

O risco da estagnação

Mesmo que as piscinas naturais continuem lindas e os hotéis lotados, o impacto turístico continuará limitado se Ipojuca não enfrentar seu problema de custo e ordenamento. Sem fiscalização de preços e sem uma reorganização rigorosa da postura dos ambulantes, o turista nacional — que representa 94,21% do fluxo — começará a buscar destinos vizinhos no Nordeste que ofereçam respeito ao bolso e tranquilidade na areia.

E é justamente nesse ponto que o relatório de novembro de 2023 se torna símbolo da falha, pois um diagnóstico preciso, pago com dinheiro público e que expôs as feridas do destino, não serviu para transformar a gestão da orla em um ambiente real de acolhimento.

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