Por que a esquerda sempre fortalece a direita no debate sobre operações policiais?
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O artigo de Fillipe Vilar sobre a tradição da violência nos ajuda a entender o que se viu na Operação Contenção, deflagrada no Rio de Janeiro em outubro de 2025. A ação, que deixou mais de cem mortos, virou manchete mundial e mostrou que a segurança pública continua sendo, antes de tudo, um campo de narrativa, e que a direita aprendeu a explorá-lo com uma naturalidade que a esquerda ainda não domina.
Desde as primeiras horas, o debate se dividiu entre os que chamavam o episódio de massacre e os que o tratavam como um sucesso. Nenhuma das duas narrativas descreveu o que realmente aconteceu. O governo de Cláudio Castro não apenas defendeu a operação: a transformou em símbolo de poder. O que estava em jogo não era o controle de território, mas o controle da percepção.
A frase do governador — “de vítima, só tivemos os policiais” — sintetizou o enquadramento que dominou as redes. A escolha das palavras não foi casual. Ao separar quem merece luto de quem merece punição, Castro criou uma fronteira moral que definiu o tom do debate. Nesse cenário, quem apoia a operação pertence à comunidade dos que “defendem a lei”, quem a questiona é empurrado para o lado dos “que protegem bandidos”. E isso transforma um tema técnico em uma batalha moral.
A estética da autoridade
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A operação foi televisionada e narrada em tempo real. O helicóptero que sobrevoava a favela cumpria o papel de argumento visual. Caveirões e policiais em ação circularam com mais impacto do que qualquer discurso. Nas redes, perfis bolsonaristas transformaram o episódio em conteúdo motivacional.
Somente as publicações do governador Cláudio Castro sobre a operação somaram mais de 21 milhões de visualizações e 1,8 milhão de curtidas em poucos dias, números de uma campanha digital de massa, não de um informe institucional.
Toda a operação impulsionou um movimento de alta performance digital em toda a direita, do bolsonarismo ao centro, com figuras como Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Lucas Pavanato e diversos influenciadores alinhados que amplificaram a narrativa de autoridade e confronto. O episódio deixou de ser um fato policial e tornou-se um produto político com circulação massiva. A população via o Estado agir, e a imagem bastava para criar essa sensação de ordem.
O mito que nasce da denúncia

O exemplo mais claro de como o senso comum reverte a crítica em heroísmo é o fenômeno de Tropa de Elite. Wagner Moura tentou denunciar a brutalidade e a lógica fascista da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O público transformou essa denúncia em um mito de força.
O Capitão Nascimento, pensado como a personificação de um sistema violento, virou herói popular. O filme pretendia provocar reflexão e acabou produzindo identificação. Esse caso ajuda a entender o drama da esquerda no debate sobre segurança. Toda vez que a esquerda denuncia o autoritarismo, a direita sobe no palco da denúncia. O gesto de repúdio é capturado e transformado em narrativa de autoridade. É o mesmo movimento que se viu na Operação Contenção: o ato pensado como alerta virou combustível de popularidade.
A esquerda criou Bolsonaro assim!
Jair Bolsonaro foi o herdeiro político do Capitão Nascimento. Antes mesmo de 2018, o imaginário criado por Tropa de Elite já circulava nas redes como símbolo de ordem e coragem. Em 2013 e 2014, quando a direita bolsonarista ainda era minúscula no debate público, começaram a aparecer memes e vídeos que pediam “o capitão para presidente”. O personagem de ficção havia se transformado em arquétipo, e Bolsonaro se encaixou nele com perfeição.
A esquerda, acreditando denunciar um extremista, acabou promovendo um “herói”. Cada vez que resgatava as falas mais violentas, como o “tinha que matar uns 30 mil na ditadura”, a defesa à tortura e o desprezo pelos direitos humanos reforçava o papel que o público esperava dele.
Ao tentar alertar o país sobre o perigo, a esquerda deu palco ao personagem que encarnava o que o senso comum queria ver resolvido. A cada entrevista indignada, a cada manchete alarmista, Bolsonaro crescia. A crítica ajudou a construir a mística do antipolítico, o homem que não se desculpa, o que “manda matar” em vez de “fazer reunião”.
Quando o bolsonarismo explodiu em 2018, ele já estava preparado desde o cinema, alimentado por anos de indignação seletiva e pelo hábito da esquerda de reagir com repulsa onde o público reagia com desejo. A denúncia construiu o “mito”. A própria esquerda criou o inimigo que depois passou a combater.
Quando a favela vira número
Há um ponto ainda mais incômodo. A esquerda costuma denunciar as mortes em favelas em escala estatística, e não humana. Fala em 120 mortos, em letalidade policial, em genocídio. Mas raramente personaliza essas vidas, raramente dá rosto, nome e história aos mortos.
A consequência é devastadora: o público médio não se vê representado nem pelos mortos nem por quem fala deles. A sociedade, marcada por racismo e preconceito territorial, reage como se cada corpo fosse um culpado presumido.
Se a esquerda concentrasse o discurso nas quatro mortes de policiais ocorridas na mesma operação, teria mais chance de ser ouvida, porque o senso comum se identifica com a farda, não com o morro. Essa inversão mostra o tamanho do abismo emocional entre discurso e percepção.
A imprensa fura a bolha que a esquerda não alcança
As críticas mais contundentes à Operação Contenção não vieram dos influenciadores de esquerda, mas da imprensa tradicional. Canais de TV e portais de grande audiência transmitiram imagens da carnificina, deram voz à Defensoria Pública e repercutiram denúncias de execução.
Essa presença na mídia aberta garante que o discurso crítico ainda circule fora das bolhas ideológicas. Mas é uma circulação indireta. A esquerda depende da visibilidade institucional da imprensa, enquanto a direita fura a bolha organicamente, com base em performance emocional e narrativa de pertencimento.
Um lado fala por meio de jornalistas, o outro fala por meio de ídolos digitais. Um ainda informa; o outro mobiliza. A diferença é de origem!
A gramática do medo

A política brasileira aprendeu a monetizar o medo. A cada operação, o público experimenta o mesmo ciclo emocional: pavor > alívio > gratidão. O medo é a matéria-prima, a violência é o remédio, e a sensação de proteção, ainda que ilusória, é o produto entregue. A política que promete alívio sempre parecerá mais convincente do que a que oferece explicação.
A direita domina esse terreno porque oferece presença. Mostra o Estado agindo. A esquerda reage com diagnósticos e indignação moral, e o eleitor interpreta a crítica como ausência. O discurso progressista conforta a bolha, mas repele o centro.
O eleitor que teme pela própria segurança não quer ser convencido de que a polícia é o problema. Quer acreditar que o Estado ainda tem controle. E quem mostra controle é quem performa poder, não quem o explica.
O que Vilar chama de continuidade histórica da violência é a base sobre a qual esse tipo de comunicação se apoia. O país foi educado a ver o uso da força como um gesto de redenção. Da repressão das maltas urbanas do século XIX aos caveirões contemporâneos, a violência sempre carregou uma promessa de purificação moral. A morte é descrita como limpeza. O tiro é tratado como símbolo de coragem. Nesse imaginário, a letalidade policial não é um erro, é a prova de que o Estado ainda existe.
A derrota da razão
Monitoramentos de redes sociais mostram que a quantidade de publicações críticas à operação foi maior, mas o alcance das mensagens de apoio foi muito superior. O campo que celebrou a ação teve um volume de engajamento três vezes maior. O motivo é claro: a direita fala a língua da emoção imediata. Suas mensagens são curtas, imperativas e visuais. Elas pedem reação, não reflexão. A esquerda está acostumada a responder com análises longas, termos técnicos e tom explicativo, o tipo de conteúdo que o algoritmo penaliza e o público ignora.
O termo “narcoterrorista”, usado pelo governador para descrever os mortos, retirou de cena qualquer ideia de proporcionalidade. Quando o Estado classifica o inimigo como terrorista, ele elimina a dúvida sobre o uso da força. A violência passa a ser tratada como defesa da sociedade. E isso é politicamente rentável. No ambiente polarizado, atacar a operação é visto como traição ao senso comum da ordem.
A estética da guerra converteu-se em propaganda política. A esquerda se esvazia nesse debate porque insiste em disputar fatos quando o adversário já venceu pela imagem. Ela fala sobre protocolos e direitos humanos num campo dominado pela gramática do medo. A população não quer ouvir sobre controle institucional, quer sentir que há governo. A “bala comendo” não é um detalhe operacional, é a prova visível de que alguém está mandando.
O impacto eleitoral
Por isso, o discurso dos parlamentares de esquerda sobre segurança é eficiente apenas dentro do seu próprio campo ideológico, mas devastador em disputas majoritárias. Ele conforta a bolha, mas repele o centro. O eleitor que teme pela própria segurança não quer ser convencido de que a polícia é o problema, o eleitor médio quer acreditar que o Estado ainda tem controle.
Esse descompasso é mais do que comunicacional, pois a esquerda reforça a própria distância do sentimento popular. Não é apenas uma derrota de comunicação. É uma erosão de presença. O primeiro desperta confiança, o segundo exige compreensão. E o eleitor não vota em quem entende, vota em quem parece capaz de resolver.
O caso do Rio é o retrato dessa pedagogia da força. A cada grande operação, o público é educado a associar autoridade à violência e comando à morte. Foi assim com Tropa de Elite, foi assim com Bolsonaro, foi assim com Wilson Witzel e está sendo assim com Cláudio Castro. A diferença é que agora a lição já está internalizada: a brutalidade virou atributo de liderança.
Os movimentos digitais indicam que o impacto da Operação Contenção vai muito além do noticiário policial. Isso consolida o discurso de segurança como eixo eleitoral para 2026, da direita bolsonarista ao centro conservador. O mesmo instinto punitivista que elegeu um “capitão” em 2018 segue ativo. A operação não é só uma ação de governo, é um ensaio de campanha.
A cultura pop, através de Tropa de Elite, ensinou uma lição que a esquerda ainda não aprendeu: quem denuncia sem dominar o palco é transformado em personagem do adversário. O discurso da direita digital não é contracultura. É establishment emocional. É a institucionalização do instinto de sobrevivência como programa político.
O cidadão não compartilha o vídeo de um policial atirando porque concorda com a tática, mas porque quer se reconhecer como parte do lado que “não tem medo”. É esse pertencimento emocional que se converte em voto.
A pergunta central não é por que a esquerda perde o debate, mas por que insiste em travá-lo nesses termos. Enquanto vemos a imprensa tradicional criticando a operação e a ONU pedindo explicações, as redes estão em festa mostrando o retrato de um país em que a força vale mais do que o resultado.
No fim, a Operação Contenção não apenas consolidou Cláudio Castro e a direita como símbolos de autoridade. Ela reencenou, com estética nova, a mesma narrativa que ajudou a eleger Bolsonaro. Mostrou que o país não aplaude a morte — aplaude a sensação de que alguém, enfim, mandou.
Enquanto o discurso sobre segurança continuar a ser conduzido pela estética da bala, a política continuará refém do medo. E o medo, no Brasil, sempre foi o idioma da obediência.
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