O Lula do Velho Testamento
Imagem: Edição / IA
Lula quer resgatar o velho espírito da esquerda que nasceu nas ruas, nos sindicatos e nos movimentos populares. Segundo reportagens da Folha de S. Paulo e de O Globo, o presidente tem incentivado Guilherme Boulos a assumir um papel central nessa retomada, reforçando a ligação entre o governo e os movimentos sociais que ajudaram a construir o PT. A aposta é clara: Boulos pode ser o elo entre a militância de base e uma esquerda que se acostumou a disputar curtidas e visualizações nas redes.
O avanço das redes sociais transformou o modo de fazer política. Likes e seguidores viraram métricas de popularidade, e muitos novatos cresceram surfando nesse engajamento digital. Mas Lula parece — e com certa razão — enxergar o limite desse modelo. A popularidade virtual é volátil e não necessariamente se traduz em votos. Como o próprio Boulos declarou ao UOL, “muita gente da esquerda virou comentarista de Twitter”. O desafio é transformar engajamento online em mobilização real.
A prova disso veio no resultado expressivo alcançado quando a esquerda — a ‘tradicional’ e a ‘twitteira’ — foi às ruas, em 21 de setembro, contra a anistia e a PEC da Blindagem. E se há um nome capaz de fazer essa ponte, na visão de Lula, é o de Boulos. Sua trajetória no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) o conecta a uma militância orgânica, com legitimidade entre as periferias e movimentos urbanos. Ao mesmo tempo, ele compreende o poder da comunicação digital e fala com a geração que consome política por vídeos curtos e postagens rápidas. É o tipo de figura que pode unir a rua e o feed — dois campos que a esquerda precisa equilibrar se quiser continuar relevante.
A nomeação de Boulos para uma função ligada à articulação com movimentos sociais, ventilada por O Globo e pelo Correio Braziliense, representa uma tentativa de Lula de reviver a relação histórica entre o governo e as bases que o sustentaram por décadas. O presidente parece disposto a atualizar o “Velho Testamento” da política de esquerda: manter o diálogo direto com o povo, mas sem ignorar a nova linguagem das redes.
Enfrentando um dos grandes dilemas da era Lula 3: reconectar emoção e organização, reconstruindo o espírito combativo que marcou os anos de ouro da esquerda, esse é o desafio central. Trata-se de retomar o controle da disputa ideológica que hoje se trava nas timelines, sem perder de vista que a política real continua sendo feita com corpo, voz e, principalmente, presença.
No fim, a mensagem é simples e estratégica. Lula aposta em Boulos não só como aliado político, mas como símbolo de um retorno às origens. Num tempo em que a política virou performance, o desafio da esquerda é voltar a fazer política de verdade: com mobilização, presença e propósito. A rua continua sendo o maior termômetro da democracia.
E se essa aposta der certo, pode abrir o caminho para 2026 com nova força e ampla vantagem na largada. Se der errado, será mais um exemplo de que a popularidade — principalmente nas redes — sem uma base viva, não sustenta projeto político. Porque as redes sociais são palco, e política, no fim, requer pé no chão.
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