A política está ignorando a Geração Z e o preço disso será alto demais
Foto: Bay Ismoyo/AFP
Imagine uma geração inteira que cresceu em um mundo digital, que nunca precisou da permissão de um jornal ou de um palanque para falar, e que agora se vê diante de um sistema político que insiste em tratá-la como um espectador passivo. O preço dessa surdez política não é apenas o afastamento da juventude, mas a criação de uma bomba-relógio social.
Essa geração nasceu em meio a telas, algoritmos e conexões que redefiniram o espaço público. Ela constrói pertencimento em comunidades digitais, transforma indignação em mobilização e se comunica com ironia, velocidade e emoção. O problema é que as estruturas políticas continuam presas a uma lógica hierárquica, incapaz de compreender o novo modo de circulação de ideias e afetos.
A política ainda enxerga as redes como instrumentos de marketing, enquanto a juventude as vive como território de expressão e vínculo. Esse desencontro cria um abismo de linguagem. De um lado, a geração que pensa em rede. Do outro, instituições que falam em linha reta. Nesse vazio, a desconfiança cresce e a representação se esgota.
O risco é estrutural. Uma geração que não encontra escuta dentro do sistema tende a buscar novos espaços de expressão e articulação. Quando isso ocorre em escala global, o resultado é deslocamento de poder e surgimento de novas formas de representação fora das estruturas formais.
O alerta global
Nos últimos meses, o cenário internacional expôs um fenômeno que ultrapassa fronteiras: a reorganização política da juventude diante da falência dos canais institucionais de escuta. Do Nepal a Madagascar, de Marrocos ao Peru, o que se vê é uma sucessão de levantes protagonizados pela Geração Z, articulados a partir de plataformas digitais e movidos por uma sensação comum de exaustão com o sistema político tradicional.
O caso mais emblemático ocorreu no Nepal. Em setembro de 2025, o governo decidiu bloquear o acesso às redes sociais sob o pretexto de conter desinformação. Em menos de 48 horas, o que era uma medida técnica se transformou em crise de Estado. Jovens, privados do principal espaço de expressão pública, transferiram para as ruas a indignação que antes circulava pelas plataformas. O governo caiu. A tentativa de silenciar o digital resultou em uma explosão social sem precedentes.
Poucas semanas depois, a reação se espalhou. Em Madagascar, a insatisfação com a falha nos serviços de água e energia tornou-se ponto de inflexão para uma população que já vivia sob o peso da pobreza e da corrupção endêmica. A juventude, cansada de promessas vazias e inspirada pelas mobilizações no Nepal e no Quênia, transformou a falta de serviços básicos em um símbolo da falência do Estado. O movimento cresceu com rapidez, tomou as ruas de Antananarivo e, diante da adesão de parte das forças militares, derrubou o governo.
No Marrocos, a mobilização surgiu da indignação com a morte de mulheres em hospitais públicos sucateados, enquanto bilhões eram destinados à preparação para o Mundial de 2030. Jovens formaram o grupo GenZ 212, organizaram protestos por meio do Discord e do TikTok e expuseram a distância entre o investimento no espetáculo e a negligência com o essencial. O Estado respondeu com repressão, mas o movimento ganhou densidade social e tornou-se o maior desafio político do país em décadas.
No Peru, a tentativa de impor uma reforma previdenciária a uma juventude sem emprego estável provocou uma reação em massa. Estudantes, trabalhadores informais e jovens profissionais ocuparam as ruas, e o que começou como protesto econômico se transformou em contestação institucional.
Em todos esses casos, a constante é a mesma: jovens conectados, descrentes das formas tradicionais de poder, encontrando nas redes o espaço onde constroem sentido e legitimidade. Quando esses espaços são limitados, a frustração se converte em movimento. A política tenta controlar o canal, mas o canal já se tornou o próprio território do poder.
O retrato brasileiro – A geração órfã
No Brasil, a juventude vive um paradoxo: é a mais conectada da história e a mais distante do poder. São 47 milhões de jovens entre 15 e 29 anos (quase um quarto da população!) imersos em um cenário de precarização e ausência de futuro. A taxa de desemprego entre 18 e 24 anos é de 14,9%, o dobro da média nacional. Mais de dez milhões não estudam nem trabalham, e segundo a OCDE, 24% dos brasileiros de 18 a 24 anos estão na condição “nem-nem”, a quarta maior proporção do mundo. O resultado é uma geração que inicia a vida adulta sem perspectivas de estabilidade.
O número de jovens diagnosticados com transtornos de ansiedade e depressão cresce de forma constante, e pela primeira vez o índice de adoecimento mental entre adolescentes supera o dos adultos. Pesquisas mostram que 62% dos brasileiros de 18 a 28 anos sentem medo do futuro, e 78% apontam a ansiedade como o sentimento predominante. A falta de perspectivas transformou o desamparo em experiência geracional. Quando o sistema educacional falha, o mercado exclui e a saúde pública não ampara, o desamparo deixa de ser uma exceção e se torna a experiência comum.
O poder continua concentrado em figuras de outra era. A média etária do Congresso, das câmaras municipais e das estruturas partidárias cresce a cada eleição, e a distância entre quem decide e quem vive os efeitos das decisões nunca foi tão grande.
O digital ocupa o espaço que a política abandonou. É ali que essa juventude encontra escuta, comunidade e reconhecimento. O problema é que o Estado, em vez de compreender esse território, tem se aproximado dele pelo viés do controle. Desde 2022, decisões judiciais e projetos de lei ampliam o poder de intervenção sobre plataformas digitais. A ideia de regulação, legítima em seu princípio, começa a se confundir com a tentação de censura. Quando o poder tenta moderar a única esfera onde a juventude ainda se sente ouvida, não está apenas limitando um canal técnico. Está interferindo no último espaço de pertencimento político efetivo.
Servidores do Discord reúnem milhares de jovens em comunidades que simulam parlamentos, organizam debates e testam narrativas de poder. É uma nova arena de formação política e identidade coletiva, invisível para quem ainda enxerga a comunicação em termos de propaganda.
Uma sociedade que não oferece caminhos institucionais para a juventude se expressar acaba produzindo sua própria instabilidade. O Brasil ainda não chegou ao ponto de ruptura, mas os sinais de desgaste são claros.
A falha de tradução
A distância entre a política e a juventude brasileira não é apenas geracional. É uma falha de tradução. O sistema político ainda fala uma língua que essa geração não entende, feita de formalismos, discursos prontos e campanhas que simulam empatia, mas não comunicam verdade.
Essa geração nasceu na era em que a comunicação deixou de depender da imprensa e passou a ser feita de forma horizontal, onde cada cidadão se tornou mídia. A política, porém, continua operando como se precisasse de mediadores para existir. O resultado é um diálogo de surdos. A juventude fala em redes, comunidades e microconversas. A política responde com jingles, slogans e promessas genéricas.
O comportamento eleitoral também mudou. A Geração Z não assiste ao debate político tradicional, ela vê cortes, memes e símbolos. Seu aprendizado político é fragmentado, audiovisual e mediado por algoritmos de identificação emocional. Quando a política insiste em uma lógica analógica de comunicação, lenta, hierárquica e distante, ela se torna irrelevante para o ciclo de atenção dessa geração.
A política insiste em ser didática quando o público quer sentir identificação. Ignora que o algoritmo não distribui ideias, distribui afetos. O problema não é apenas ignorar a Geração Z, mas não entender o formato cognitivo em que ela processa o mundo. A consequência disso é que os atores anti-sistêmicos, ou cínicos, acabam sendo os únicos compreendidos.
Há ainda o problema da autenticidade. As campanhas tentam parecer espontâneas, mas são percebidas como encenações. A geração Z rejeita o artificial porque cresceu sob o excesso da simulação. Quer líderes que se mostrem vulneráveis, com posições claras, coerentes e humanidade visível. O político que fala como se estivesse em um púlpito perde a escuta. Aquele que conversa como parte da comunidade conquista pertencimento.
Não adianta tentar convencer quando a juventude quer se conectar. Comunicação, hoje, não é mais transmissão, é relação. E quem não entende isso perde relevância, mesmo que tenha estrutura, dinheiro e tempo de TV.
O colapso entre o sistema político e a Geração Z é, no fundo, uma crise de linguagem, de emoção e de pertencimento. Não é que os jovens tenham se afastado da política; é a política que deixou de existir onde eles estão. Quando o discurso não encontra mais eco, o que sobra é o vazio. E nesse vazio se formam as rupturas.
O Brasil ainda tem tempo para reconstruir pontes. Mas isso exige uma mudança de mentalidade. É preciso deixar de tratar a juventude como público a ser educado e reconhecê-la como sujeito político a ser escutado. Ignorar isso é insistir em uma linguagem morta diante de uma geração viva. E o preço dessa surdez será alto demais.
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